quinta-feira, 25 de maio de 2017

Um roteiro para a história de descoberta do sentido paradigmático de śraddhā?

Um roteiro para a história de descoberta do sentido paradigmático de śraddhā
L. C. Maciel falando sobre o seu curso - 2017
Ao completar sessenta anos, a idade da sabedoria, dei início a alguns projetos em consonância com a arte de aprender a morrer para o que é efêmero e a envelhecer de bem com a vida. Daí nasceu uma inesperada amizade com Luiz Carlos Maciel, um mestre na ciência dos roteiros e que se tornou um amigo querido do nosso grupo. Ele nos ofereceu um pequeno curso sobre as técnicas de roteiro para cinema e tv e o sucesso foi tal que nos motivou a um segundo curso, ainda em andamento, onde assumimos o desafio de produzir um roteiro, de fato.

No meu caso, que nunca tive vocação para dramaturgo, as dificuldades foram inúmeras e quem tiver a paciência para ouvir os áudios deste segundo módulo do curso testemunhará alguns episódios divertidos. Para resumir a estória, este exercício de reflexão sobre os roteiros da vida está me ajudando a dar forma a este livro blog, que já vem sendo formatado como o roteiro de um docudrama. "Docudrama" é um neologismo anglófono que designa os programas que exploram acontecimentos reais de forma dramática e sem perder a aderência aos fatos. O livro blog (ver o índice de capítulos na coluna da direita) pretende retratar a minha própria jornada até o insight que me revelou em uma única imagem o tópico absolutamente impactante e original para o desenvolvimento de uma tese filosófica sobre a centralidade de śraddhā (a convicção íntima, a bússola, o ardor e a amorosa luz do coração que ilumina e dá foco à razão) na Bhagavad Gītā. Provar esta centralidade me permitiu também demonstrar que o texto trata, não de uma religião em particular, mas do fenômeno da religião. Trata do sagrado e da religiosidade em geral, ou seja, da espiritualidade imanente em todas as religiões e externamente a elas também, quando a essência (śuddha) do sagrado (dharma) se reveste, por exemplo, de diversas formas de humanismo. Decorrem de śraddhā o sentimento intuitivo, a confiança e a certeza interior que dão origem às religiões e à filosofia. As religiões ocupam-se meramente da fé (latim: “fides”; grego “pistis” – crença) nas Escrituras, enquanto a Bhagavad Gītā ocupa-se do discernimento átmico, ou seja, daquele discernimento que se alcança quando a razão é esclarecida pelo coração (Ātman), promovendo o sentimento de certeza racional e fé interior (śraddhā) que transcende a mera fé, que, por vezes, é cega e se opõe ao bom-senso e a razão.

Esta roteirização em forma de livro-blog não pretende ser dramática, apaixonada, nem biográfica, pois isto me impossibilitaria de ter o distanciamento crítico necessário para retratar com imparcialidade e credibilidade a história da descoberta da centralidade de śraddhā, não apenas na Bhagavad Gītā, mas em toda a contemporânea contracultura e filosofia do coração (eco-dharma, eco-espiritualidade, eco-feminismo, direitos animais, veganismo, etc.), onde o seu sentido paradigmático, de fundamento epistemológico, se faz presente de forma decisiva e determinante. Ainda assim, ela se estrutura, parcialmente, como o Monomito.

Este esforço narrativo da história de descoberta do sentido paradigmático de śraddhā é fruto de viniyoga – a disciplina do Śuddha Yoga que nos capacita a começar qualquer nova jornada do ponto em que se está, bastando (1) coragem para dar o primeiro passo; (2) disciplina, determinação e confiança para exercer a escuta interior; e (3) foco para se manter no caminho indicado pelo coração.


Próximo texto: Sorriso Interior: a Bhagavad Gītā e os germens da Anti-Psicanálise
Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 24 de maio de 2017.
(Atualizado em 07.06.17)

(Śraddhā: A Chave da Engenharia Interior da Gītā)