O que é a Meditação Transcendental (Śuddha Dhyāna)?



Diário da Consciência de Si
Iogue em Śuddha Yoga
Não é necessário pertencer a nenhuma instituição religiosa, nem saber sânscrito e conhecer a Bhagavad Gītā, para compreender e praticar meditação. Meditação, por excelência, é uma atividade individual. As práticas coletivas, conforme introduzidas pelo budismo, por exemplo, atendem melhor aos iniciantes e àqueles com dificuldades para encontrar tempo e motivação para a meditação individual. Daí a importância do Sangha (comunidade), uma das três jóias do budismo, dos Ashrams e dos Núcleos de Estudos, que, ao estimularem as práticas coletivas, motivam e fortalecem os seus membros.

Não há consenso, nem é simples definir de forma abrangente o que seja a meditação. Contudo, nenhuma prática de meditação é digna deste nome se ela não promover o sentimento de amor e de pertencimento à fonte universal de vida do universo. Não pode ser chamado de meditação nenhum processo que não tenha o amor como a sua base e o seu fundamento. O amor é a lei universal e a base da meditação. O amor e a compaixão acalmam e regulam, naturalmente, a nossa respiração. Representam a verdadeira "técnica" de respiração das práticas de meditação. Daí que todas as técnicas de respiração, simplesmente, são de pouca ajuda, se não estiverem associadas ao sentimento de amor e compaixão.

Meditar, em essência, significa aquietar o pensamento e vibrar nesta frequência de amor puro da energia cósmica (Brahma-śakti) de onde surgiu o universo e que nos unifica à nossa transcendente origem. Nesse sentido, não é algo totalmente estranho à cultura ocidental. Pelo contrário, representa o ensinamento simbolizado no primeiro dos Dez Mandamentos da tradição judaico-cristã. Como exemplo temos o esforço de Jesus para restabelecer o ideal de sintonia com a fonte de onipotente poder de onde procedem todas as formas de Vida, e que o levou a dizer, "eu e o Pai somos Um". Meditação é um estado de silêncio interior. O Senhor Buda alcançou a iluminação praticando esse silêncio interior conhecido no zen budismo como Zazen (za=sentar; zen=meditação).  Sentar-se em silêncio e diminuir todos os estímulos externos, até que tudo desapareça e fique apenas o sentimento de amor que nos conecta à todas as formas de vida. Enquanto Krishna sintetiza a ciência da meditação na Bhagavad Gītā e Buda busca vivê-la na prática, adaptando-a e popularizando-a pelo oriente; Jesus, ao promover a ciência do amor, pavimenta, aos poucos, as vias para que as práticas contemplativas e de meditação cheguem, no devido tempo, também ao ocidente. Há muitos enfoques para se acessar a essência comum do pensamento que fundamenta as distintas práticas de meditação.  Originalmente, o conceito de meditação não se confunde com o conceito de contemplação amorosa de uma "pessoa" divina (formulado no ocidente), e sim de um "princípio inteligente e sagrado" (Brahman) de "regulação amorosa da ordem cósmica" (dharma) e presente em nós mesmos.

Meditação é algo que se desenvolve e se aprimora não apenas com a prática desta ou daquela técnica, mas, principalmente, a partir de nossa própria reforma interior. Antes do nosso compromisso com esta reforma, não faz muito sentido se falar em meditação. Além disto, com o tempo e a prática, todas as técnicas iniciais e os distintos tipos de meditação tornam-se uma mesma coisa. Chega o momento em que o recolhimento dos sentidos dos objetos exteriores para o único foco passa a revelar a presença do sagrado.  Somente então pode-se dizer que se desenvolveu, de fato, a capacidade de entrar em estado de meditação.

Meditar é como dormir acordado, mas fazendo emergir o observador, a amorosa testemunha. Significa recolher-se para o interior de si mesmo em estado de vigília, até que, cessando os movimentos da consciência, a batida do seu coração vibre naquela frequência amorosa do OM (AUM) -- a representação, por excelência, da meditação pura e transcendental e que contém, em si mesma, a centelha, ou a semente, dos três níveis, ou aspectos da realidade, onde se oculta a ciência da meditação (A-U-M):

A - representa a Nirguṇa Dhyāna, ou meditação no aspecto imanente e de natureza subjetiva da realidade sagrada, presente em tudo e em todos sob a forma do Espírito Universal, ou Ātman;

U - representa a Saguṇa Dhyāna, ou meditação no aspecto imanente e de natureza objetiva do sagrado, manifestado, em grandes seres e líderes religiosos como Krishna, Buda, Jesus e outros;

M - representa a Śuddha Dhyāna, ou meditação transcendental, que tem por objeto a natureza não manifestada de Brahman, a qual só nos referimos por negações (neti, neti), uma vez que sobre esta natureza nada se pode afirmar, a não ser que dela resulta a Brahma-śakti, a energia que representa a fonte de amor cósmico de onde surgiu o universo. Na iconografia clássica esta Energia Cósmica ganhou inúmeras representações antropomórficas, reunidas sob o nome de Śrī Yoga Devī, a Mãe Divina.

A mente prende-se a uma e outra coisa. Faça com que ela se prenda UNICAMENTE ao sagrado, afirmam os textos religiosos das mais distintas tradições. Deixe a mente executar todas as ações como um instrumento desse Sagrado e entregue ao Sagrado também o êxito ou o fracasso, a perda e ou ganho, o júbilo e mesmo o eventual desânimo. Este é o segredo último contido na Bíblia, na Torah hebraica, no Corão, nos Jatakas do budismo, na Bhagavad Gītā e também em vários textos e rituais, tanto de nossos ancestrais como das mais distintas culturas e tradições.  Daí o ensinamento, tantas vezes repetido, de que devemos cuidar de “Orar e Vigiar”. Podemos começar pelas pequenas coisas, por exemplo, evitando as palavras néscias. Todos os grandes seres nos ensinaram sobre esta forma de jejum. Sim, há o jejum de alimentos, há o jejum de palavras (silêncio) e, por fim, o jejum de pensamentos. O jejum de pensamentos leva ao esvaziamento e harmonização da caixa preta que é a nossa mente e, logo, à aproximação de nós mesmos e aos três aspectos, ou fases, da meditação: Saguṇa Dhyāna, Nirguṇa Dhyāna e Śuddha Dhyāna.


A essência, o centro e o coração de toda a cultura védica e Upaniṣádica está representada no ancestral Yoga de que trata a Bhagavad Gītā. O sistema de meditação sugerido ao longo da Bhagavad Gītā é o mesmo que aparece em várias discussões das Upaniṣads e que foi posteriormente compilado nos Yoga Sūtras de Patanjali. Está sintetizado nos versos 23 a 28 do capítulo 17 da Gītā. No verso 23, por exemplo, a expressão triádica "OM TAT SAT", tanto significa "OM, isto é a verdade!", como também representa os três meios de acesso para Brahman e que corresponde aos três níveis da prática de meditação aqui discutida: Śuddha Dhyāna (OM), Saguṇa Dhyāna (TAT) e Nirguṇa Dhyāna (SAT). O verso 24 esclarece a natureza daqueles que são aptos e praticam a Śuddha Dhyāna (aqueles que expõem a ciência de Brahman); o verso 25 trata daqueles que compreendem e acessam apenas a Saguṇa Dhyāna (os praticantes dos distintos rituais religiosos); e o verso 26 descreve aqueles que realizam a Nirguṇa Dhyāna (os que  realizam ações auspiciosas para alcançar a essência da bondade e da realidade). Os versos finais, 27 e 28, definem as condições necessárias para a prática de meditação (firmeza na internalização dos rituais, na postura austera e no cultivo da compaixão, bem como no desempenho de todas as atividades relacionadas com a meta suprema) e apresentam a sua condição sine qua non -- śraddhā (a fervorosa devoção e o sentimento de compaixão).  Sem śraddhā, ou seja, sem a presença do fervor do coração e do amor universal, nenhuma prática de meditação é digna deste nome.

Conforme a listagem canônica que aparece na seção do Rāmāyaṇa conhecida como Muktikā (Liberação), são 108 as Upaniṣads. Destas, 20 se agrupariam como “Yoga Upaniṣads”. São elas: Dhyānabindu, Haṃsa, Triśikhi, Maṇḍalabrāhmaṇa, Amṛtabindu, Amṛtanāda, Kṣurika, Brahmavidyā, Yogatattva, Yogaśikhā, Yogakuṇḍalinī, Varāha, Śāṇḍilya, Pāśupata, Mahāvākya, Yogachūḍāmaṇi, Darśana, Nādabindu, Jabala e Tejobindu. A Dhyānabindu Upaniṣad é uma das vinte “Yoga Upaniṣads” descritas pela literatura que se situam nesse contexto. “Bindu” quer dizer “ponto” e aqui se refere ao ponto (anusvāra) sobre o símbolo do AUM. Representa a Brahma Śakti (M), ou seja, a energia divina e promotora da unificação do aspecto material e concreto da pessoa humana (U) com o seu aspecto espiritual e sagrado (A), a um só tempo imanente e transcendente. “Bindu” também significa "origem, raiz, semente", indicando que a Dhyānabindu Upaniṣad trata das origens da meditação.

A Dhyānabindu Upaniṣad trata do termo “haṃsa” (cisne) como representação onomatopeica do processo de respiração. Os manuscritos desta Upaniṣad aparecem em duas versões: uma de 23 versos, parte do Atharvaveda; e outra, expandida, de 106 versos, que é parte do Sāmaveda e inclui técnicas de Yoga que não se encontram nos Yoga Sūtras de Patanjali. Segundo afirma a versão estendida de 106 versos, “pela sílaba ‘ha’ ele recebe o exterior e pela sílaba ‘sa’ ele se interioriza”.  “Haṃ-sa, haṃ-sa”, representa o ininterrupto mantra da vida e simboliza a prática de meditação em Brahman. A versão original, de 23 versos, traz também algumas imagens que sugerem a fenomenologia do Espírito de Brahman (Ātman):

Ātman (Alento Universal) existe em todos os seres
Como a fragrância existe nas flores
Como a manteiga no leite
Como o óleo nas sementes oleaginosas
Como o ouro no minério de ouro
Todos os seres estão interligados pelo Ātman
Assim como as pérolas estão pelo fio do colar
Deste modo, com a mente fixa em Brahman (o Absoluto, representado pelo AUM),
O Conhecedor de Brahman alcança a iluminação. (Dhyānabindu Upaniṣad, v. 7 e 8)

O silêncio experimentado com a iluminação seria a prova empírica do infinito em nosso interior (v. 4 a 6). A seguir (v. 11 a 17) o texto relaciona as etapas do Prāṇāyāma (pūraka, kumbhaka e rechaka) aos aspectos com forma da divindade (Brahma, Vishnu e Shiva) subsumida em Nārāyaṇa, sugerindo a evolução natural de uma espécie de meditação para outra.  Arraigados ao pseudo concreto mundo objetivo das formas, nos é mais adequado meditar na pessoa de seres com forma, tais como Shiva, Nārāyaṇa, Buda, Cristo, etc. Com a prática, contudo, passa-se a representar estes seres como expressões da luz interior do coração (Ātman).  É a este processo de internalização da divindade que se denomina, tecnicamente, como Rishi-nyāsa (interiorização da divindade externa). O texto afirma que apenas por meio desta meditação já é possível alcançar, respectivamente, o mundo dos ancestrais (Pitṛyāna) e dos seres celestiais (Devayāna), representados na tradição védica pelas sendas da lua e do sol. E conclui (v. 19 a 23), valendo-se de metáforas que aparecem também no Śvetāśvatara Upaniṣad (1.14) e Amṛta Upaniṣad (13), que nas formas mais elevadas de meditação “o Pranava OM é o arco; a alma humana, a flecha; e Ātman, unicamente, o alvo”.

O sistema de meditação aqui exposto está em consonância com a Bhagavad Gītā, com os Yoga Sūtras e com toda a tradição upaniṣadica que deriva a prática de meditação da ideação (Bhāvana) de que "Tudo é verdadeiramente Brahman" – Sarvam Khalvidam Brahma (Chāndogya Upaniṣad 3.14.1) e, portanto, que tudo se dá necessariamente (Sarvam avaśyakam), segundo a sagrada e perfeita lei de ação e reação. Apresenta também elementos que nos lembram as meditações budistas, descritas em textos, por exemplo, como o Bodhicaryāvatāra de Santideva. Um fundamento comum das modalidades de meditação do Yoga e do budismo é a ênfase na escuta interior.  Outro fundamento é a ênfase em se dar precedência a śreyas (o mais correto) sobre preyas (o mais prazeroso). Destes dois fundamentos deriva-se o sentido profundo da meditação como uma prática contínua, que deve se estender pelo dia todo, sem que jamais nos esqueçamos que meditar envolve, principalmente, meditar na ação, durante todas as nossas atividades cotidianas. Daí a importância do entendimento de que o próprio processo de respiração pode se tornar, aos poucos, uma meditação: somos a testemunha, o observador imparcial, que não se afeta pela realidade externa, “Haṃ-sa, Haṃ-sa”...

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Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 30 de setembro de 2016
Atualizado em 05.04.17)

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