Sorriso Interior: a Bhagavad Gītā e os germens da Anti-Psicanálise

Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser.
Comecei a refletir de forma mais consciente sobre a Anti-Psicanálise quando decidi escrever meu primeiro texto literário, Síndrome do Pânico: Aprendendo com a pedagogia da dor (Ed. Litteris: 1998). Esta pequena novela deveria se chamar Sorriso Interior em homenagem ao poeta simbolista Cruz e Souza, mas, por pressão da editora, saiu com esse título, que contemplava um dos temas da moda. Embora hoje eu rejeite este primeiro texto de minha carreira como filósofo e não reconheça nele valor literário, ainda o prezo por ele guardar os germens do método Anti-Psicanalítico que pretendo apresentar nesta serie de artigos. O livro reflete sobre algumas instâncias concretas da Síndrome do Pânico para exemplificar aquilo que concluíra então ser uma Lei Universal e a essência do método que buscava elaborar: o medo é sempre uma ausência; ausência de uma forma de amor.  Para a psiquiatria, o problema do Pânico se relacionava unicamente com uma proteína defeituosa e o modo como ela influenciava nas sinapses. Não cabiam, portanto, quaisquer interpretações subjetivas sobre os humores. Existiam os sintomas, o diagnóstico e a prescrição medicamentosa que se deveria tomar por toda a vida para manter a síndrome sob controle. Com base no meu ainda incipiente conhecimento acadêmico e filosófico, e também em minha razoável experiência pessoal com o Śuddha Yoga, embora sem rejeitar o auxílio da medicina, explorei no livro como me libertar dos fármacos. Se medo é ausência de amor, poderia minimizar e até mesmo bloquear o desencadeamento de novas crises de pânico simplesmente cultivando o sentimento de Bhāvana que, por se fundar no amor, funcionaria como um antídoto para o medo. E isto foi, gradualmente, provando ser verdadeiro. Hoje sabemos, por exemplo, que Yoga e meditação reduzem os gastos com a saúde em até 40% , mas àquela época estas coisas eram ainda tabus na área médica.

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Ashram Ātma
Minha primeira e verdadeira experiência anti-psicanalítica, se posso chamar assim, deu-se quando eu era ainda muito jovem e fui conhecer, em janeiro de 1979, a convite do Instrutor do Ashram Ātma, Francisco Barreto, o núcleo inicial do Śuddha Sabha Ātma. A vida de Francisco e o próprio Ashram Ātma pareciam um experimento de Anti-Psicanálise. Foi ali que comecei a escrever, em consonância com o que prevê a disciplina dos Śuddha Yogues, as primeiras linhas deste diário da consciência. Embora tivesse chegado à Escola Śuddha em 1974, pelas mãos do próprio Instrutor Continental, Sri Vajera, um dos pioneiros do movimento espiritualista e introdutor, ainda nos idos de 1920, das práticas de meditação na América Latina e Brasil, não tinha, até então, me dado conta da importância de manter um diário desta natureza.  Foi a partir das reflexões do diário que iniciei a redação do livro, entre 1987 e 1990, período em que trabalhei como voluntário no Śuddha Sabha Ātma. É desta época também a escolha dos seguintes versos de Fernando Pessoa para definir a espinha dorsal de todo o texto:
A terra é feita de céu,
a mentira não tem ninho.
Ninguém jamais se perdeu,
porque tudo é verdade e caminho.
Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser.
Estes versos me sugeriam que é sempre possível reinterpretar a realidade sem os seus contornos, sem a ilusória noção de nitidez, tal como se vê, por exemplo, em um quadro de Monet, onde o objeto representado se mostra antes ao coração que à razão. Eles continham a essência do Śuddha Yoga revelado por Krishna a Arjuna no texto da Bhagavad Gītā – Escritura Sagrada que representa para mim o manual por excelência da ciência Anti-Psicanalítica. Ali Arjuna e Krishna representam figuras arquetípicas do humano e do sagrado, cujo diálogo simboliza a eliminação dos contornos da realidade material que nos dão a falsa sensação de nitidez e certeza. A Bhagavad Gītā faz parte da literatura Śruti (escuta) da Índia e representa uma narrativa dentro da narrativa maior do épico indiano Mahābhārata, que faz parte da literatura Smṛti (memória). Escuta e memória são tão fundamentais na Bhagavad Gītā quanto o são na tradição do pensamento ocidental, conforme se depreende, por exemplo, dos proêmios dos Diálogos de Platão. Ou seja, do proêmio, pelo uso da memória, extraiam-se as diretrizes para se seguir adiante em cada novo encontro. 

No caso do livro a ideia era conceituar o medo e o pânico e construir na práxis as estratégias para a sua superação a partir da doutrina do coração, proposta na Bhagavad Gītā. Meu objetivo era estimular em mim mesmo, e também no leitor, a escuta interior e acordar as memórias mais profundas, guardadas em códigos genéticos. Por isto, já na Introdução, procurara imitar a função de rememoração dos proêmios dos Diálogos de Platão e me alienar naquela atmosfera onde reinava o sentimento de amor ao conhecimento:
Tendo adoecido da alma, um dia também precisei inventar um deus. Dei-lhe o nome de Amor. Criei em mim aquilo que se costuma rotular de alienação. Mas era uma alienação por amor e, assim, por ela me deixei governar. Em latim, “outro”se diz alienus. É crítica e lugar comum nos dias de hoje a afirmação de que os homens se alienam. Com isto pretende-se dizer que os homens criam ou produzem alguma coisa dando-lhe independência para que exista por si mesma, e então deixam-se governar por ela, como se ela tivesse poder em si mesma. Esta, por exemplo, a crítica marxista sobre a alienação social. Marx chamava a ação sociopolítica e histórica de práxis; e o desconhecimento de sua origem e suas causas, alienação. (Síndrome do Pânico; p. 18)
Resolvera me alienar no amor, que representa o estágio superior da alma e, consequentemente, de superação de toda e qualquer forma de alienação. E assim foi “o deus [-amor] que criara ganhando cada vez mais realidade e concretude, pois amor não é somente um conceito, mas algo real que podemos cultivar” (p. 18), tal como o fizera Cruz e Souza, o Cisne Negro, tomado como paradigma do método ao longo de todo o livro.  Os germens, o espírito e a essência disto que hoje chamo de Anti-Psicanálise e que chamara então de Psicoética encontram-se também em Cruz e Souza, no livro Últimos Sonetos (1905), principalmente, nos sonetos “Crê!” e “Sorriso Interior”, este último considerado por muitos o seu testamento espiritual:

Crê!
Vê como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crê nobremente.
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.
Que seja a Crença uma celeste brisa
Inflando as velas dos batéis do Oriente
Do teu Sonho supremo, onipotente,
Que nos astros do céu se cristaliza. 
Tua alma e coração fiquem mais graves,
Iluminados por carinhos suaves,
Na doçura imortal sorrindo e crendo.. 
Oh! Crê! Toda a alma humana necessita
De uma Esfera de cânticos, bendita,
Para andar crendo e para andar gemendo!
Sorriso Interior 
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranqüila. 
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila. 
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio. 
O ser que é ser tranforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
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Via nesses versos a beleza, a elegância, a intuição e o rigor das soluções e provas matemáticas, semelhante àquela da teoria de limites e derivadas, utilizada para resolver equações envolvendo a divisão por zero. Cruz e Souza fazia uso do símbolo e dos seus desdobramentos para solucionar as contraditórias equações da vida, aparentemente insolúveis, e assim alcançar um profundo estado de conforto espiritual. Em Cruz e Souza os aspectos exógenos e endógenos da vida se unificam e harmonizam, tal como se dá na Bhagavad Gītā. Seus versos nascem da coragem para os nobres enfrentamentos da decepção e da dor, que aceitara de forma compreensiva e amorosa. É desta capacidade de sublimação da dor que nasce a sua relação de intimidade com a estética do sublime, de onde afloram as intuições.  Cruz e Souza trata em seu diálogo sobre a arte, “Intuições”, que aparece no volume de poemas Evocações (1989), da intimidade com a mística das intuições. Toda a visão física esconderia uma penumbra de correspondência entre a arquitetura cósmica e a natureza de Deus. Haveria certo sentido de correspondência cifrada, a ser decifrada por nós, entre o mundo interior e a realidade exterior. Aí nesse gérmen da purificação ascensional, me parecia, residia a semente da Anti-Psicanálise gestada em seus versos. No texto “Um homem dormindo”, que também consta de Evocações, Cruz e Souza declara:

Entretanto, assim parecendo despreocupado dos segredos e signos da Vida, renunciando a tudo, agora, nesse aspecto de aparente tranquilidade simples do sono, ele está ali curiosamente, em fundas brumas, vivendo uma alta e íntima vida psíquica muito mais intensa, muito mais complexa e preocupada do que a outra.

Porque ninguém sabe que, a seu pesar, ele, por mil sutis combinações transcendentes e engenhosas do querer latente do seu organismo anelante deseja atingir, tocar e radiar entre as esferas siderais do majestoso Espírito.

Porque mesmo não há alma nenhuma, por mais vã, por mais humilde, por mais obscura que seja que não aspire subir, por secretos movimentos instintivos e intuitivos, que são as transfulgentes escadas do Abstrato, às transfiguradoras montanhas do Sonho, ao desenvolvimento melhor, à pura perfectibilidade; penetrar, consolada, alheando-se de tudo, nas transcendentalizantes auroras boreais do Sentimento, satisfazendo assim, embora inconscientemente, a ansiedade de Infinito que cada alma traz mais ou menos em si, por maior ou menor que seja a esfera de ação onde ela gravite.
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No livro Síndrome do Pânico procurara, embora sem muito sucesso, decifrar estas correspondências entre os mundos interior e exterior. A estratégia adotada em meu texto procurava respeitar a assertiva pitagórica de que o mais valioso é conseguir prever por si próprio o melhor caminho a se tomar. Em seguida viria chegar ao melhor caminho a partir do exemplo dos demais. E a seguir, só aprender após sofrer as conseqüências das más escolhas. No dizer de Voltaire, “a descoberta do caminho mais verdadeiro, bem como a prática daquilo que é bom, constituem os dois mais importantes objetivos da filosofia” e, consequentemente, da própria vida humana. Kant, bem mais tarde, retomaria esta questão, reapresentando-a sob a forma do seu imperativo categórico. De acordo com a máxima kantiana, estaríamos autorizados a praticar uma dada ação somente se fosse legítimo que todos também pudessem praticá-la quando em condições semelhantes. Em outras palavras, Kant propõe como critério de decisão, a verificação, através da consciência individual, do grau de universalidade da ação a se executar. Esta ética individual que orientava a visão de mundo de Pitágoras e Kant é o que se designa como Sva-dharma no contexto da Bhagavad Gītā.  Representa o modo próprio de cada um (sva) de atuar e se adequar ao mundo conforme as suas leis (dharma). No contexto da Bhagavad Gītā, representa algo que se atualiza no tempo e que talvez melhor se traduza como o estilo de vida mais adequado para o desenvolvimento espiritual. Refere-se aos usos e costumes que promovem o desenvolvimento de determinado grupo, em função do anseio natural dos indivíduos por proteção. Contudo, como a palavra “lei” sugere algo que é imposto, é comum traduzir-se dharma, por exemplo, no caso do hinduísmo, em termos do funcionamento do sistema de castas.  Na Bhagavad Gītā, a correspondência entre os mundos interior e exterior implica, primeiro, em atender aos deveres que o indivíduo tem com a sociedade e, segundo, como corolário necessário, em atender aos deveres que cada um tem para consigo próprio. Envolve, portanto, a busca de sintonia com as leis que regem o desenvolvimento harmônico do mundo. E nesse contexto dharma jamais é algo que nos é imposto, mas apenas exposto, pois cada um vê e aceita apenas aquilo que a consciência consegue apreender e compreender. As ações consideradas legítimas e verdadeiras, desse modo, são aquelas que sempre têm por objetivo a elevação do próximo. 

Embora não fosse psicanalista, podia também ver na Bhagavad Gītā muitos pontos de convergência e de divergência com o pensamento freudiano. Daí eu nomear de Anti-Psicanálise à esta ciência da mente contida no Śuddha Yoga apresentado por Krishna a Arjuna, e sobre a qual me debruçarei  mais detalhadamente na próxima seção. Freud concebe o Ego, Superego e o Id como agentes distintos dentro do organismo. O Id se caracteriza por ser egoísta, agressivo, preocupado com as privações básicas, e indiferente às necessidades semelhantes por parte dos outros. O Superego, a consciência, é o responsável pelo comportamento que controla o Id. O Ego tenta o acordo entre o Id e o Superego. Na Bhagavad Gītā também se pode falar em algo similar a estes três “eus” do esquema freudiano.  Aproximadamente, o que Freud chama de Id, é descrito na Bhagavad Gītā como Ahaṃkāra. O termo próximo para Ego é Jīva; e para Superego, Ātman. Em sânscrito, “kāra” denota agente, autor, executor, causante; e também força, potência. “Ahaṃ” denota o “eu”; representa o espírito (Ātman) enquanto submetido à matéria. Assim, Ahaṃkāra aparece como o elemento pelo qual o ser assume o estado de separação, a individualidade. Representa a natureza inferior e típica de nossa identidade material. “Āt” significa movimento, e “ma” significa “não”. Ātman -- imutável –  representa o Espírito de Brahm (Deus), o sopro de vida em cada um de nós, os Jīvas, ou almas individuais em permanente evolução e que experimentam as alegrias e pesares da vida sem saberem, a princípio, como controlar o avassalador poder da matéria. Jīva teria jurisdição sobre as características físicas e emocionais do ser humano. Pode se manter subjugado à influência da matéria, ou pode vencê-la, realizando desse modo a sua natureza átmica. A influência exercida pela matéria sobre os Jīvas (as pessoas) pode ser avaliada a partir da discussão da Bhagavad Gītā das três características básicas (guṇas) da matéria denominadas, respectivamente, tamas, rajas e sattva. Tamas representa o princípio “estático”; rajas o princípio “explosivo”, “dinâmico”; e sattva o princípio “harmonioso e rítmico”. Na literatura sânscrita, toda a matéria é considerada como dotada destas três qualidades e em cada indivíduo, dependendo do estímulo interno do Espírito em dado momento, predomina uma delas.   

Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser.No livro Síndrome do Pânico considerei a classificação dos modos sáttvicos, rajásicos e tamásicos das pessoas e levei em conta que, se tamas descreve todo um quadro de sintomas, em sattva percebe-se o que entendemos como a prescrição para o desaparecimento dos sintomas.  De modo geral, a inclinação pela aquisição de conhecimentos e a preocupação com as questões sociais e culturais indica a natureza sáttvica; as disputas e a busca de vantagens pessoais indicam a natureza rajásica; e o interesse na satisfação a qualquer preço dos próprios apetites corporais indica a natureza tamásica. Para exemplificar estas três naturezas, encerro esta primeira seção sobre os germens da Anti-Psicanálise com a seguinte passagem do livro Síndrome do Pânico, retirada do capítulo intitulado “Alguma coisa acontece no meu coração” (pp. 84 a 87): 

Resumindo: a despreocupação, a perversão e a ignorância seriam engendradas por tamas, que representa a inércia, o poder de se deixar iludir e fascinar. De acordo com uma certa leitura médica do Gītā, o diagnóstico da enfermidade espiritual causada por tamas é feito através da pesquisa de alguns dentre dez possíveis sintomas:
1. Quanto à visão de mundo: tamas está predominando quando o indivíduo passa a ver o processo do mundo como sem causa alguma e sem significado;
2. Quanto à percepção moral e ética: tamas está predominando quando se desconsidera o imperativo categórico kantiano e se passa a considerar equivocadamente as leis sociais como inferiores às instintivas e naturais, características do mundo meramente animal; nesse estado, todas as aspirações e ideais superiores do espírito são vistos como coisas vãs e inferiores;
3. Quanto ao ser como um todo: o indivíduo tamásico está constantemente influenciado pelo sono, medo, angústia, desalento e pela natureza tirânica;
4. Quanto ao modo de agir: o indivíduo predominantemente tamásico age sem discernimento, sem levar em consideração o esforço necessário para ser bem sucedido, sem se preocupar com as conseqüências advindas de seus atos, causando toda série de desperdícios e prejuízos para o mundo;
5. Quanto à atitude religiosa: embora possa estar quase sempre presente em todos os rituais, nunca lá está com o coração;
6. Quanto à disciplina: é capaz até de se impor flagelos, mas sempre com o propósito de obter vantagens pessoais, ou ferir aos demais;
7. Quanto à interação e às trocas sociais: sem se importar com as conseqüências, age de forma insultante, sem levar em consideração o momento, o lugar e a cultura de cada um;
8. Quanto ao seu perfil psicológico: invejoso, falso, indolente, se entrega ao desalento, conserva prolongadas inimizades, é obstinado e costuma só valorizar os aspectos materialistas da vida;
9. Quanto ao seu estado de espírito: só busca aquilo que, no início ou no fim,
apenas produz enganoso prazer como efeito do sono excessivo, da preguiça e da
negligência; e
10. Quanto aos frutos que colhe: como resultado de suas ações, permanece embrutecido e em estado de total ignorância em relação ao seu próprio ser.  
Rajas, o guṇa da mobilidade, incita toda sorte de paixões. Intermediária entre tamas e sattva, parece ser dominante na maioria das pessoas. Aqui também o diagnóstico pode ser feito através de dez possíveis sintomas. São eles:
1. Quanto à visão de mundo: o indivíduo rajásico vê em todos os seres apenas a variante “multiplicidade”, sendo tudo sempre desigual;
2. Quanto à percepção moral e ética: não alcança compreender o imperativo categórico kantiano e tampouco compreende o que deve e o que não deve ser feito;
3. Quanto ao ser como um todo: intensamente desejoso de gozar de todos os
frutos, só o que anseia é satisfazer a si próprio;
4. Quanto ao modo de agir: executa as ações com apego aos seus resultados, egoisticamente e por vezes, com violência;
5. Quanto à atitude religiosa: participa dos rituais com o objetivo de obter vantagens pessoais e a glorificação de si mesmo;
6. Quanto à disciplina: torna-se austero por ostentação, com a finalidade de obter reconhecimento, respeito e estima, embora às vezes perceba que todos esses resultados são efêmeros e fugazes;
7. Quanto à interação e às trocas sociais: nunca se furta à ação, age mesmo que de má vontade, mas sempre com a finalidade de obter retribuição;
8. Quanto ao perfil psicológico: é apaixonado pela vida, insaciável, às vezes invejoso e cruel, e é escravo deste mundo e seus prazeres;
9. Quanto ao seu estado de espírito: através dos contatos sensoriais experimenta a princípio a felicidade doce como o néctar; passado o fogo das paixões vê sua efêmera felicidade transformar-se em amargo veneno;
10. Quanto aos frutos que colhe: ao final, o resultado das ações do homem predominantemente rajásico é a dor. 
O que se prescreve para os espíritos sob influência predominantemente tamásica ou rajásica é a terapêutica sáttvica. O conhecimento que dá poder e tonifica a faculdade cognitiva provém de sattva, que é rítmica e harmoniosa como a natureza cósmica inferida pelos pitagóricos. Assim, o medicamento prescrito para nos dar forças é a prática do yoga, que tem seus resultados também diagnosticados em dez etapas:
1. Visão de mundo: há que se fazer um esforço para passar a compreender e reconhecer a constante unidade subjacente a toda essa caótica multiplicidade;
2. Moral e ética: há que se compreender e reconhecer a necessidade da execução das ações legítimas e justas, ao mesmo tempo que se abster das ilegítimas; há que se discernir entre a escravidão provocada pelo temor e a liberdade produzida pela ausência de temor com relação à execução ou não da ação;
3. O ser: as funções da faculdade das emoções, do intelecto e dos sentidos hão de estar em permanente união, nunca se permitindo a incoerência entre o discurso e a prática;
4. A ação: executar apenas as ações necessárias, sem apego, sem atração nem aversão e sem desejo pelos seus frutos; apenas executar porque se há que executar;
5. O contacto com a essência universal: trabalhar pelo social, orar, meditar, mas sem nada pedir de pessoal para si;
6. A disciplina pessoal: buscar levar uma vida austera como um fim em si mesmo e não como meio para conseguir favores e outras benesses;
7. As relações com o mundo: sempre agir sem nunca esperar retribuição, considerando apenas a necessidade e as condições circunstanciais quanto ao tempo, ao local e à cultura;
8. Perfil: Alcançar o equilíbrio psíquico significa ter conseguido se libertar dos vícios, apegos, do egoísmo; significa obter entusiasmo e conseguir ficar imperturbável ante os êxitos ou fracassos oriundos das ações praticadas neste mundo;
9. Estado de espírito: o remédio é amargo, a prática parece veneno em seu início, exige esforço, mas aos poucos vai se tornando doce como a ambrósia, gerando cada vez mais estados de felicidade. Isto é conseguido quando as forças dionisíacas se harmonizam com as apolíneas; e
10. Os resultados: a iluminação e a paz, ainda na guerra.
(Atualizado em  18.02.17)

(Śraddhā: A Chave da Engenharia Interior da Gītā)