O que é Sākśī Bhāvana?


Sākśī (sa, “com”; e akśa, “centro da roda, olho”) significa, “observador”, “testemunha”. Quando a roda gira, seu centro (akśa) permanece imóvel. O estado de Testemunha, Sākśī, expressa a capacidade de observar impassivelmente os eventos que fazem o mundo girar.
Há dois pássaros, dois bons amigos, que habitam a mesma árvore do Ser.
Um se alimenta dos frutos desta árvore; o outro apenas observa em silêncio.”
(Muṇḍaka Upaniṣad 3.3.1)

Sākśī (sa, “com”; e akśa, “centro da roda, olho”) significa, “observador”, “testemunha”. Quando a roda gira, seu centro (akśa) permanece imóvel. O estado de Testemunha, Sākśī, expressa a capacidade de observar impassivelmente os eventos que fazem o mundo girar.

1. A Metáfora da Pessoa Humana e do Espírito Universal que a Anima

A primeira referência de que se tem registro na história às práticas de meditação aparece nesta metáfora dos dois pássaros, introduzida no Ṛigveda e longamente discutida em diversas Upaniṣads como modelo explicativo da relação da pessoa humana com o Alento Universal e Sagrado que a anima, sem que disto se tenha consciência:
Dois pássaros com belas asas, companheiros inseparáveis, encontraram refúgio e abrigo na mesma árvore. Um deles se alimenta dos doces frutos da figueira; o outro, sem se alimentar, apenas observa...  (Ṛigveda 1.164.20)
Os dois pássaros referem-se à nossa dupla natureza, material  e espiritual, e simbolizam o processo de meditação. De um lado, inconstante, imperfeito e finito, o ser corpóreo (natureza humana) permanece em movimento, experimentando de todas as coisas. De outro lado, contudo, estático, perfeito e infinito, o Ser (nossa natureza sagrada; Espírito de Deus em nós) apenas observa e aguarda pelo reencontro – é a este processo de descoberta unificação da alma (Jīva, o ser) com o Espírito (Ātman, o Ser) que se chama de meditação.

Desde as primeiras Upaniṣads a concepção de Haṃsa (cisne, símbolo do Espírito) é utilizada pelos yogis em sentido místico para designar o casamento do “eu” (haṃ), que no oriente representa a terceira pessoa, com o espírito universal “ele/ela” (saḥ), que representa a primeira pessoa. Esses dois aspectos também estão relacionados com o Prāṇāyāma, conforme os movimentos de puraka (inspiração) e rechaka (expiração). O cisne Haṃsa simboliza o supremo som seminal (nāda), presente no coração, onde o princípio consciente de Ātman atua em estado de separação (vi-yoga) e união (saṃ-yoga).

A Māntrika Upaniṣad (Upaniṣad do praticante de mantras) apresenta esta metáfora da passagem  1.164.20 do Ṛigveda logo em seu verso de abertura. Apresenta o cisne Haṃsa como o ser humano realizado, que alcançou o contato e a unificação com a essência do sagrado em si mesmo (Ātman). Haṃsa banha-se no lago pertencente à mente (Manas). O texto descreve os dois aspectos deste cisne de oito pés, cujas penas representam a superação e o domínio sobre as três qualidades da matéria, ou guṇas. Faz uma exposição de Brahman em seus aspectos imanente e transcendente: habitando no coração de todos os seres como o Espírito (Ātman), ao mesmo tempo que a tudo transcendendo.  O verso inicial afirma que um desses aspectos do cisne é visível; o outro, invisível. O aspecto visível representa o ser humano, que se alimenta do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. O aspecto invisível representa a imagem e semelhança do Espírito Puro e Universal (Ātman), eternamente sem mácula, que reside no interior de cada um de nós.

2. Sākśī Yajña: O exercício interior para alcançar a Atenção Plena

19.02.16.  Quarta-feira de Cinzas... Data em que alcancei a iniciação, ou a compreensão, na prática, da disciplina interior que conduz à Atenção Plena -- ou seja, àquela capacidade de reconhecer a presença do sagrado em tudo o que a vida  nos oferece em cada novo instante e que nos possibilita aceitar com gratidão e enfrentar com confiança e destemor todos os desafios que a vida nos apresenta a cada novo dia.

"Haṃ-sa, haṃ-sa", os dois pássaros são um e o mesmo cisne (haṃsa) em saṃnyāsa (renúncia ao egoísmo) e tyāga (entrega ao sagrado) no lago da consciência cósmica do Eu Sou (Haṃ, eu sou; saḥ, isto -- o Ser)! Expressando, respectivamente, os sons de inspirar e expirar, haṃ-sa é uma onomatopeia do processo de respiração. E assim, também o mantra "OM haṃ-sa so ‘haṃ" (OM, Eu sou o Eu sou), que disciplina o Prāṇa (alento vital) e promove a identificação com o Ser  no coração ("Ele, Eu sou" -- so 'ham), fonte de onde emana a Amṛita, ou água da vida.

Sākśī representa aquela instância em nós indicativa de que não somos este corpo corruptível e sujeito à morte, mas a testemunha de tudo que se passa no corpo e fora dele. Representa o Ātman, o Espírito Puro, ou aquela Consciência Superior presente em nós que experimenta a existência do mundo sem ser afetado por ela, tal como descrito, por exemplo, no Śvetāśvatara Upaniṣad 6.11: “Oculto em todos os seres e representando o “Ser”, ele é a Testemunha, o dispensador de vida e inteligência...” Sākśī conota o próprio Iśvara, presente como a Consciência (cetā) em todos os seres humanos.

Há um pequeno texto medieval, atribuído por muitos a Adi Sankaracarya e por outros a Bharatī Tīrtha, intitulado Dṛg-Dṛśya-Viveka, onde se discute a distinção entre o “observador” (Dṛg) e a “coisa observada” (Dṛśya) que cabe aqui destacar: “Quando a forma é o objeto de observação, então os olhos são o observador; quando os olhos são o objeto de observação, então a mente é o observador; e quando as modulações mentais são o objeto de observação, então Sākśī se revela o verdadeiro observador.”

Em suma, na exata medida em que vamos nos aproximando do eixo imutável da roda de Saṃsara, vamos nos descobrindo em nossa própria natureza espiritual. Minha disciplina pessoal contempla este Śuddha Prāṇāyāma de Haṃsa Yogi (um dos Siddhas de Mitradeva), ou  Haṃsa Prāṇāyāma, que procuro praticar o tempo todo e que esconde a ciência da meditação. 
Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2016
(Atulizado em 14.10.17)

(Śuddha Rāja Yoga)