Ananta he! "Para sempre", a precedência de Śreyas sobre Preyas

O desejo é a força motriz que orienta as nossas atividades. Daí as distintas tradições religiosas proporem como disciplina a regulação dos desejos. Na literatura sagrada da Índia antiga o desejo aparece sempre associado ao par Śreyas e Preyas.
1. A Disciplina da Ação (Karma Ekatāla): estabeleço agora para mim, de forma definitiva, Ananta he!, o seguinte Saṃkalpa judaico-cristão, que traduz muito bem o espírito das principais Upaniṣads, que advogam a precedência dos anseios superiores (Śreyas) sobre aqueles de origem emocional (Preyas):

"Aos outros, dou o direito de serem como são; a mim, o dever de buscar ser cada dia melhor."

O desejo é a força motriz que orienta as nossas atividades. Daí as distintas tradições religiosas proporem como disciplina a regulação dos desejos. Na literatura sagrada da Índia antiga o desejo aparece sempre associado ao par Śreyas e Preyas. O anseio por Śreyas, infalivelmente, nos conduz à transcendência sobre a influência dos pares de opostos e às realizações superiores do espírito. De outro lado, contudo, o anseio por Preyas revela o espírito insatisfeito e em  busca de prazeres efêmeros, que, no início, são doces como o mel, mas no final apresentam a amargura do fel. Nesse caso, somente com o tempo, à proporção que aprimoramos as nossas habilidades e compreendemos os exemplos deixados por aqueles que se libertaram da via das adicções, vamos, aos poucos, sublimando os nossos desejos inferiores. Por meio de pequenos Saṃkalpas (resoluções que fortalecem a faculdade da vontade, impedindo-nos de nos afastar da meta) do tipo "Só por hoje" e outras estratégias espiritualistas, logo desabrocham os dons e talentos necessários para se avançar no caminho da virtude – caminho que, de início, parece amargo como o fel ao ex-adicto, mas com o tempo, torna-se doce como o mel. Com o passar dos anos percebe-se, então, que o "Só por hoje" torna-se, definitivamente, "Para sempre!" (Ananta he!)

Os únicos Saṃkalpas com os quais é lícito não se comprometer de forma definitiva são aqueles que percebemos serem equivocados por comprometerem um ideal maior. As decisões mais importantes que tomamos, contudo, são aquelas com as quais nos comprometemos de forma definitiva, por um ato de vontade, pelo resto de nossas vidas. Quando alguém se decide, por exemplo, por ter um filho, está realizando o voto sagrado de assumir "para sempre" o papel de mãe ou de pai. Esses compromissos "para sempre" podem não ser explícitos, mas nem por isto deixam de constituir uma espécie de voto sagrado. Daí esta referência sutil, discreta e indireta ao voto sagrado por meio da expressão "Ananta he!" (Para sempre!), pois, em geral, não nos damos conta de que a vida é constituída de decisões que nos ensinam a desenvolver a capacidade de assumir, integralmente, para o bem e para o mal, as consequências de todas as nossas ações.

2. O Foco. A mente prende-se a uma e outra coisa. Faça com que ela se prenda UNICAMENTE ao sagrado que experimentamos pelo coração, afirmam os textos religiosos das mais distintas tradições. Deixe a mente executar todas as ações como um instrumento desse Sagrado e entregue ao Sagrado também o êxito ou o fracasso, a perda ou ganho, o júbilo e mesmo o eventual desânimo. Este é o segredo último contido nos Evangelhos, na Torá hebraica, no Corão, nos Jātakas do budismo, na Bhagavad Gītā e também em vários textos e rituais, tanto de nossos ancestrais como das mais distintas culturas e tradições. Daí o ensinamento, tantas vezes repetido, de que devemos “Orar e Vigiar”. Podemos começar pelas pequenas coisas, por exemplo, evitando as palavras néscias. Todos os grandes seres nos ensinaram sobre esta forma de jejum que preserva o nosso foco. Sim, há o jejum de alimentos, há o jejum de palavras (silêncio) e, por fim, o jejum de pensamentos, que nos conduz ao estado de meditação. Foco pode ser entendido como o jejum de tudo que desvia a nossa atenção do sagrado que se oculta em todas as coisas e experiências da vida.

3. Bhāvana Namaḥ. Estabeleço agora para mim, "Só por hoje", o jejum de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos e de tudo que desvia a nossa atenção do sentimento de Bhāvana. Bhāvana Namaḥ, o jejum em forma de rendição (Namaḥ) à percepção amorosa da unidade do mundo e de todas as coisas (Bhāvana), aperfeiçoa o sentimento de amor universal e compaixão com todos os seres, bem como intensifica o compromisso definitivo (Ananta he!) de manter o foco e não permitir que se profanem os ambientes e os espaços interiores e exteriores sob a nossa guarda.

 Registro dos principais Saṃkalpas, Dīkṣās e  Saṃskāras

15.02.17. Bhāvana Namaḥ! O compromisso, "Só por hoje", com a rendição total ao sentimento de amor universal, o que significa permanecer em constante vigília e oração para não quebrar o jejum de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos e de tudo que distrai a nossa atenção do processo de Brahma-sāmīpya.
13.10.16. Karma Ekatāla: o compromisso definitivo de vigiar para não me afastar do processo de Brahma-sāmīpya, com o dever de buscar ser cada dia uma pessoa melhor.
12.03.15. Śuddha Saṃkalpa. Decisão definitiva ANANTA-HE (“Para sempre, com certeza!”), de não me desviar do Ātma-Yoga Mārga e de atuar no mundo consoante os seis discursos de Mitradeva.
05.02.12. Quinto Saṃkalpa. Decisão de apoiar e trabalhar como voluntário pela implementação da futura Universidade Śuddha (Universidade do Coração).
04.2007. Śuddha Haṃsa Yogi  Saṃskāra. Conferência do grau da classe Haṃsa para a elaboração de estudos e comentários sobre o Śuddha Dharma.
01.01.2003. Haṃsa Yogi Dīkṣā. Iniciação sutil à elaboração de textos sobre a essência do sagrado (Śuddha Dharma).
15.11.2002. Śuddha Rūpa Sūtra: Dīkṣā e recebimento do respectivo sūtra para se representar a tecitura do sagrado: devanāgarīśāstraṃ dhyānaṃ rūpakaṃ.
07.2002. Śraddhā Dīkṣā. Iniciação sutil à hermenêutica do Śuddha Dharma .
09.1988. Quarto Saṃskāra. Cerimônia Śuddha Brahmopanayana, da classe Dvija, para a interpretação da literatura sagrada.
08.1986. Terceiro Saṃkalpa. Decisão de apoiar e trabalhar como voluntário pela implementação do Śuddha Sabha Ātma.
31.03.86. Voto de Saṃnyāsa. Decisão definitiva de me afastar de toda forma de trabalho e remuneração não-ética (formalizada com o pedido de demissão como executivo da Monsanto).
06.02.83. Segundo Saṃskāra. Cerimônia de Casamento Iogue.
01.1979. Segundo Saṃkalpa. Decisão de elaborar um diário da consciência.
25.08.74. Primeiro Saṃskāra. Cerimônia de Consagração ao ideal da realização espiritual.
1966. Primeiro Saṃkalpa. Decisão definitiva de me tornar vegetariano.


Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2016
(atualizado em 22.07.17)

(Ātma-Yoga Mārga)



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