O que é a Ação (Karma) no contexto dos Seis Deveres Diários?

Krishna explica a Arjuna na Bhagavad Gītā como a prática fervorosa do conhecimento adquirido conduz à realização suprema.
Os Seis Componentes da Atividade Diária do
Śuddha Iogue
Krishna explica a Arjuna na Bhagavad Gītā como a prática fervorosa do conhecimento adquirido conduz à realização suprema. Tal disciplina, que pressupõe a renúncia (samnyāsa) ao fruto das ações e  o desligamento de todas as coisas que impedem a consagração de si mesmo à manifestação da Vontade Suprema, está representada no paradigmático verso BhG 18.66, que trata da genuína dedicação e entrega (satya tyāga) de si mesmo e, consequentemente, de todas as ações (karma), ao Supremo. Esta entrega ao Supremo tem sido expressa ao longo dos séculos dos mais variados modos pelas distintas religiões e sistemas de filosofia. Um exemplo clássico do hinduísmo é o que ocorre na passagem X.75 do Mānava Dharma Śāstra,  onde se lê:

अध्यापनमध्ययनं यजनं याजनं तथा।
दानं प्रतिग्रहश्चैव षटूकर्माण्यग्रजन्मनः॥
adhyāpanam/adhyayanaṁ yajanaṁ yājanaṁ tathā.
dānaṁ pratigrahaś/caiva ṣaṭūkarmāṇyagrajanmanaḥ.
(1) Estudo e (2) ensino; (3) realização de sacrifícios e
(4) condução de rituais; e a (5) realização e
(6) aceitação de doações são as seis principais atribuições das pessoas
de nascimento brâhmane.  (Mānava Dharma Śāstra X.75)

São estes mesmos versos que dão origem à formulação das Seis Componentes da Atividade Diária do praticante de Śuddha Rāja Yoga, conforme destacado a seguir:

1. Adhy-ayana. O estudo sobre a essência do sagrado.
2. Adhy-āpana.  Istruir os demais sobre Adhy-ayana.
3.Yājña, Realizar o sacrifício de si mesmo, que significa contemplar o Ser (ĀTman).
4. Yājana. Realizar sacrifícios pelo próximo. Significa o nosso esforço para ver e compreender o sagrado, sempre manifesto em todas as experiências da vida. Implica em ter compreendido e realizado os três deveres anteriores.
5. Dāna. Fazer a doação de si mesmo é o maior ato de caridade. Significa a rendição ao Sagrado.
6. Prati-graha. Plena aceitação da graça, ou da Vontade Suprema.

Para ilustrar o sentido desses  seis deveres, vou me valer de algumas frases que costumávamos repetir desde os tempos do antigo Ashram Ātma, quando lá ainda estava sendo concebido o atual Śuddha Sabhā Ātma -- núcleo principal da futura Universidade do Coração

A primeira, diz assim: "Sábio é aquele que sempre se lembra de permanecer no centro do seu coração esse ambiente divino que enche a alma de inigualável êxtase". De fato, acercamo-nos da essência do sagrado (śuddha dharma) em nosso próprio coração, quando o nosso único ideal passa a ser a conquista do poder de não mais se deixar desviar dessa conexão com a Essência Sagrada.

Por sinalizar a vitória sobre nós mesmos, a segunda frase foi gravada em uma placa de madeira e colocada lá na fazenda Mãe Natureza, na beira do Rio São Francisco, na divisa entre Sergipe e Alagoas, onde funciona, atualmente, o Śuddha Sabhā Ātma: "Vença o inimigo e você será um vencedor; vença a si mesmo e você se tornará invencível". Não há nada que conduza tanto à aproximação da Essência Universal em nosso próprio coração como a disciplina da renúncia de si mesmo. Em geral, nossa vida de autoindulgência faz com que coloquemos este tema em segundo plano e aí o ideal da autorrealização vira uma quimera. Costumamos sempre colocar todas as nossas energias para vencer alguma coisa fora de nós. O verdadeiro sossego, contudo, vem desta Consciência Superior presente no coração -- esta é uma verdadeira realização. 

A terceira frase, também gravada em madeira lá na fazenda, é atribuída a Chico Xavier: "o único mal a temer é aquele que ainda existe dentro de nós".  Quando percebemos que as batalhas do lado de fora nos desviam do caminho, percebemos que a nossa única batalha é aquela que travamos com nós mesmos. Vencer a si próprio significa ter perdido, definitivamente, para sempre (Ananta he!), todo o anseio de vitória externa. Significa desapegar-se das aparências exteriores e concentrar todas as forças na grande batalha interior, que dá ao ser humano a purificadora consciência de participação no Ser, como explica a  Bhagavad Gītā.

Antes de alcançarmos esta purificação (Avabhṛtha) de corpo e alma, enquanto estivermos objetivando a batalha externa, não ingressamos na esfera (maṇḍala) daquilo que se conhece como a essência mais pura (śuddha) do sagrado (dharma). Os impulsos oriundos das paixões inferiores turvam a consciência e nos impedem de acessar a realidade desta Essência Sagrada que se expressa como o Śuddha Dharma. Este, portanto, se revela de dentro para fora, "from the inside out", na medida em que vamos transcendendo tudo aquilo que serve de obstáculo para a sua materialização. E é este o sentido presente nos Seis Deveres Diários do aspirante Śuddha.

Próximo texto: O que é a Prática de Bhāvana do Śuddha Rāja Yoga?
Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2016.
(Atualizado em 19.02.17)

(Śuddha Rāja Yoga)