O que é a Prática de Bhāvana?

Na prática do Bhāvana procura-se externar o sentimento de unidade (Tudo é manifestação de Brahman) que decorre da meditação e se aperfeiçoa com ela.  O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado.
"Bhāvana" (adjetivo), e também "Bhāvanā" (substantivo feminino) designam um conceito central dos textos sagrados da Índia. Ambos os termos ocorrem nos idiomas sânscrito e páli com o significado de  "cultivo" ou "desenvolvimento", no sentido de se trazer algo à existência.  Ambos termos indicam a ideia de desenvolvimento mental e contemplação.

No caso do budismo, o mais comum é  que o termo "bhāvanā" forme expressões do idioma páli junto a outro substantivo, como em "paññā-bhāvanā, "desenvolvimento da sabedoria"; "vipassanā-bhāvanā", "desenvolvimento da meditação vipassanā; e também em "citta-bhāvanā" --  "desenvolvimento da consciência" ou "meditação na consciência". Trata-se de um termo que costuma ser utilizado para designar o surgimento de distintos estados mentais. Empregado no campo da agricultura, designa o cultivo da terra. Buda o utilizou para explicar como cultivar a meditação, levando em conta que uma ideia que é desenvolvida e posta em prática com o devido fervor é muito mais importante que uma ideia que existe apenas enquanto ideia.  A meditação deveria ser cultivada, desenvolvida, não importando em que ponto se estivesse de início.

No hinduísmo e no jainismo o termo que mais ocorre é "Bhāvana",  em geral de forma isolada, com o sentido de "concepção" ou também, no caso do jainismo,  de "moral da estória". Tal como descrito na Bhāvana Upaniṣad, o Bhāvana significa a capacidade de cultivar em si mesmo, continuamente, com uma mente pura e imperturbável, a ciência divina, Brahma Vidyā. De modo similar, no Śuddha Rāja Yoga que aqui desenvolvemos, designa-se com nome de Bhāvana à seguinte ideação, oriunda desta percepção de que tudo se origina do Supremo Brahman:

Penso com amor que todas as coisas e seres hão nascido de dentro do Espírito Universal, 
Que a tudo compenetra e a tudo sustém, em uma ordem constante e em vida eterna.
Penso com amor que todos os seres, tanto inferiores como superiores, 
Participam de uma mesma vida e formam nos espaços infinitos um só corpo cósmico.

Na prática do Bhāvana procura-se externar o sentimento de unidade (Tudo é manifestação de Brahman) que decorre da meditação e se aperfeiçoa com ela.  O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado. É a isto que se chama, verdadeiramente, de contemplação -- Bhāvana.  Não se trata aqui da adoração à alguma divindade externa, mas desse esforço que nos conduz ao reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado.

O exercício de contemplação, com atenção plena e em tempo integral, de absorver e inspirar este reconhecimento de Bhāvana, ou seja, da presença do sagrado em todas as coisas, representa o primeiro componente do Śuddha Rāja Yoga, os outros dois são, respectivamente, Karma (reta conduta, conforme expressa em śuddha prāṇāyāma) e Dhyāna (meditação). No Śuddha Rāja Yoga o conceito de Bhāvana (ideação) difere ligeiramente de Dhyāna (meditação) porque esta é indicativa de um estado fixo em que a mente se encontra absorta e imóvel. "Bhāvana" , de outro lado, deriva de "bhava",  " processo de vir-a-ser".

Na prática do Bhāvana procura-se externar o sentimento de unidade (Tudo é manifestação de Brahman) que decorre da meditação e se aperfeiçoa com ela.  O Bhāvana representa, portanto, o reconhecimento da presença, em todas as coisas, da Essência do Sagrado.
Esquema da ordenação do pensamento (cintā)
 A figura ao lado apresenta um pequeno esquema da ordenação do pensamento (cintā) realizado em 1987, quando procurava compreender a relação entre os três componentes do Śuddha Rāja Yoga. Vasudeva Row discute as cintās (pronuncia-se “chintaas”) em um pequeno estudo que acompanha a tradução ao espanhol da obra Yoga Dīpikā (Madras: 1916), publicada pela seção chilena do Śuddha Dharma Maṇḍalam (1972). Afirma que a Brahma-cintā, ou seja, o esforço de contemplação da ideação (cintā) da projeção parcial do infinito Brahman durante o processo de manifestação do cosmos (big-bang) já é, por excelência, meditação (p. 161). Por estar na origem de tudo, tal ideação atua sobre as faculdades mentais, onde se originam as demais cintās, que compõem o Śuddha Rāja Yoga: Vibhūti-cintā (ideação ou percepção das excelências); Jñāna-cintā (reflexão sobre o conhecimento adquirido); Saṃkalpa-cintā (lembrança constante das resoluções tomadas) e Karma-cintā (exercício constante do modo correto de atuar).

Não é difícil perceber que as cinco cintās compõem as três bases onde se funda o o Śuddha Rāja Yoga:

(1) a prática da Bhāvana está compreeendida nas duas primeiras cintās -- Vibhūti-cintā e Jñāna-cintā;
(2) aquilo que se entende por Karma está representado nas duas seguintes -- Saṃkalpa-cintā e Karma-cintā; e
(3) Brahma-cintā representa aquilo que está na raiz mesma de toda a criação, Dhyāna.

Isto explica, inclusive, que em estágios avançados, o praticante não necessite de nenhum aparato ritualístico como suporte para as suas práticas de Śuddha Rāja Yoga.  Chega o tempo em que já não se necessita de vela, incenso, ficar com os olhos fechados, nada disto. Pode-se, então, realizar as suas práticas em qualquer lugar, o tempo todo. Esta particularidade denota a natureza universal do Śuddha Yoga, que  a um só tempo o distingue e o unifica aos demais sistemas de pensamento.

O Śuddha Yoga implica em não se privilegiar uma forma de espiritualidade, ou de prática religiosa, mas em se deixar guiar, simplesmente, pela percepção da essência pura (śuddha) da lei (dharma) que rege o funcionamento objetivo e subjetivo dos seres e que na linguagem técnica do sânscrito designa-se como Śuddha Dharma.

Próximo texto: O que é Sākśī Bhāvana?
Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 02 de outubro de 2016
(Atualizado em 19.02.17)

(Śuddha Rāja Yoga)