O que é a Prática Introdutória de Meditação do Śuddha Raja Yoga?

O ancestral Yoga apresentado por Krishna tem por objeto de contemplação o sagrado em seus aspectos, respectivamente: (1) imanente e de natureza objetiva, presente em grandes seres como o próprio Krishna (Saguṇa Dhyāna); (2) imanente e de natureza subjetiva, presente em tudo e em todos sob a forma do Espírito Universal, ou Ātman (Nirguṇa Dhyāna) e (3) transcendente, em conformidade com a natureza imanifestada de Brahman (Śuddha Dhyāna), sobre a qual só nos referimos por negações (neti, neti), uma vez que sobre esta natureza nada se pode afirmar.
Sri Vajera
O objetivo principal desta prática introdutória é aguçar a percepção sobre a complementaridade entre a ordem dos mistérios (estético-espirituais) e dos ministérios (ético-políticos) da vida como um todo, tal como descrito por Krishna a Arjuna na Bhagavad Gītā. O ancestral Yoga apresentado por Krishna tem por objeto de contemplação o sagrado em seus aspectos, respectivamente:
(1) imanente e de natureza objetiva, presente em grandes seres como o próprio Krishna (Saguṇa Dhyāna);
(2) imanente e de natureza subjetiva, presente em tudo e em todos sob a forma do Espírito Universal, ou Ātman (Nirguṇa Dhyāna) e
(3) transcendente, em conformidade com a natureza imanifestada de Brahman (Śuddha Dhyāna), sobre a qual só nos referimos por negações (neti, neti), uma vez que sobre esta natureza nada se pode afirmar.

Na literatura védica o sagrado se apresenta como transcendente e imanente. A transcendência representa o aspecto inativo, inatingível e supremo do sagrado sobre o qual só se pode dizer “isto não; isto não” – “neti, neti”. A palavra “transcendência” vem de “transcendentia”. Significa “estar além de”. A palavra “imanência” vem de “in-manere”, deter-se em. Significa ficar no interior, dentro de limites. A Imanência representa o aspecto ativo do sagrado que, enquanto Providência, se deixa traduzir como o dharma que rege o cosmos e também os atos de amor dos seus representantes. Tal como creem tanto os panteístas como os materialistas, a Imanência pressupõe que a causa da mudança e transformação das coisas está dentro das próprias coisas, sem necessariamente circunscrever a realidade aos limites da própria experiência humana. Diferentemente dos materialistas, contudo, os panteístas também admitem a existência do principio ordenador da realidade acima da experiência possível, alinhando-se, portanto, também com o transcendentalismo.

A característica dos verdadeiros praticantes destas três formas principais de meditação, conhecidas como Saguṇa Dhyāna, Nirguṇa Dhyāna e Śuddha Dhyāna é a capacidade de se estabelecer, subjetivamente, no sagrado coração e de lá passar a atuar, objetivamente, de forma generosa, harmônica e sem perder a paz interior. Tal capacidade resulta do esforço de participar da vida em constante e contínuo estado de meditação, ou seja, em estado de atenção plena, de vigília constante e de comunhão com o sagrado. Esta prática de meditação, levada a cabo o dia todo, é o que se designa no puro (Śuddha) Yoga pelos termos técnicos saṃnyāsa (renúncia ao egoísmo) e tyāga (entrega ao sagrado), os quais se traduzem no esforço confiante de aceitação e superação dialética de todas as diferenças e adversidades (tanto no plano individual e privado, como no público e político) que a vida nos apresenta.

Quem alcançou a décima e última das lições introdutórias*** estabelecidas no passado pela seção chilena da instituição religiosa denominada ŚUDDHA DHARMA MANDALAM (SDM)  sabe que o conteúdo destas lições, praticamente, coincide com aquele do ritual da Prática da Saúde, onde se contemplam os exercícios introdutórios às três formas de meditação que compõem o Yoga de que trata a Bhagavad Gītā: meditação externa (Saguṇa Dhyāna) meditação interna (Nirguṇa Dhyāna) e meditação pura (Śuddha Dhyāna). Organizada por Sri Vajera a partir de algumas passagens do Sanātana Dharma Dīpikā, a Prática da Saúde divulgou e popularizou estas formas de meditação em toda a América Latina. 

***O sistema instituído por Sri Vajera:
0. Introdução ao Yoga. Introduz o mantra OM NAMO NĀRĀYANĀYA.
1. Primeira Lição.  Introduz a Prática do Prāṇāyāma (Puraka e Rechaka).
2. Segunda Lição. Introduz a Prática do Prāṇāyāma (Puraka, Kumbhaka e Rechaka) com tempos 1/1/1.
3. Terceira Lição. Introduz a Prática do Prāṇāyāma (Puraka, Kumbhaka e Rechaka) com tempos 1/4/1.
4. Quarta Lição. Introduz o Mangala Gāyatrī e o Bhāvana
5. Quinta Lição. Introduz a primeira parte da Saguṇa Dhyāna: Imaginar estar ante a presença de um ser divino.
6. Sexta Lição. Introduz  a segunda parte da Saguṇa Dhyāna: a concentração do pensamento entre as sobrancelhas e aí  contemplar o objeto imaginado. Esta prática ativa o Ajna Chakra, ou seja, possibilita o alinhamento de Manas e Buddhi e o consequente despertar da visão espiritual e outros siddhis. Com este grupo de seis lições, se encerra o Primeiro Grau, que consiste nas práticas conduzentes à Saguṇa Dhyāna.
7. Sétima Lição. Introduz o tema da PRESERVAÇÃO DA SHAKTI.
8.Oitava Lição.  Introduz o olhar teosófico sobre o tema da consciência de corpo e da Nirguṇa Dhyāna, considerada a partir do sétimo chakra e sua relação com a glândula pineal e do corpo pituitário. A glândula pineal representa o devaksha, o olho divino, o qual se desperta segundo o poder da Vontade  Purificada [śraddhā] do discípulo.
9. Nona Lição. Introduz a Nirguṇa Dhyāna a partir do Japa do Yoga Gayatri.
10.  Décima Lição. Introduz a Śuddha Dhyāna.

Não vamos discutir aqui a importância histórica desta pioneira sistematização que introduziu as práticas de meditação na América Latina (c. 1920). O que cabe destacar é como estas dez lições preliminares preparavam os membros para a esfera da espiritualidade pura (śuddha dharma), que transcende a esfera meramente ritualística e religiosa das instituições estabelecidas e organizadas em torno de instrutores religiosos, templos e igrejas. Organizadas por Sri Vajera, com a devida autoridade e segundo a sua experiência e compreensão pessoal da doutrina Śuddha,  tratam, basicamente,  (1) da entrega e renúncia de si mesmo; e (2) da meditação conforme as três modalidades descritas nos textos do SDM.  A partir da sexta lição, quando Sri Vajera introduz os temas da Nirguṇa e Śuddha Dhyāna fica mais visível a influência de textos e autores de outras escolas, com os quais Sri Vajera demonstra certa familiaridade. Isto explica, por exemplo, o fato de Sri Vajera citar na sexta lição, uma edição da Gītā de 700 versos e 18 capítulos. A primeira edição em espanhol da Gītā do SDM, com 745 versos e 26 capítulos, é de 1970; e a segunda, de 1978.  Antes de 1970, portanto, muito pouco, ou quase nada, se sabia desta Gītā na América Latina. 

O acesso ao conteúdo deste curso de dez lições introdutórias não é ainda público. Aqueles que manifestam o desejo sincero de trilhar esta via são convidados a ingressar nestas instituições estabelecidas como "ashramas" independentes e com distintas personalidade jurídicas. Após os cumpridos os devidos ritos recebem a primeira lição, que deve ser praticada diariamente, sem interrupção, por um período não inferior a três meses. Aqueles que assim o fazem, recebem a lição seguinte e assim por diante, até a última. 

Um resumo, ou melhor, uma síntese de toda a ritualística estabelecida no curso introdutório de dez lições pode ser encontrada no Livro Pratica da la Saude, publicado pela seção chilena do SDM e já traduzido para o português por diversos ashramas brasileiros do SDM. De forma mais específica e direta, contudo, esta mesma síntese pode ser encontrada no precioso folheto, publicado originalmente no Chile e depois traduzido no Brasil como "Introdução ao Yoga". Estranhamente, este texto não merece muita atenção dos membros. Eu, contudo, ainda possuo o exemplar da Seção Chilena do SDM, chamado "Introducion al Yoga", que recebi em meados de 1974, quando demonstrei interesse em conhecer as práticas de Yoga do SDM. No folheto,  Sri Vajera discute o mantra OM NAMO NĀRĀYANĀYA e o estudioso mais atento  logo se dá conta de como Sri Vajera já nos introduz, não apenas às três Dhyānas, mas também  ao Śuddha Prāṇāyāma -- este objeto de um magistral artigo de Sri Janardana, o dirigente mundial da instituição até 1966, ano de sua morte. 

Segundo o texto, este mantra composto de oito sílabas e invocado pelos grandes seres para estabelecer  sintonia com o trabalho dos regentes cósmicos, nos coloca sob a luz e proteção de toda a divina hierarquia. Sri Vajera explica que ao pronunciar a primeira sílaba, OM, devemos imaginar que estamos dentro do Espírito Cósmico, que por sua vez, está dentro e fora de nós, compenetrando o Universo Infinito. NAMO indica rendição e a expressão NĀRĀYANĀYA indica a NĀRĀYANA como o objeto de nossa rendição plena de felicidade  NARA denota "pessoa" e AYANA, "refúgio, proteção". Logo, NĀRA-AYANA refere-se àquele que, em cada plano da existência, representa o próprio ĀTMAN, ou seja, o princípio presente em cada PESSOA. OM NAMO NĀRĀYANĀYA, deste modo, refere-se à atitude mental de entrega*** ao aspecto de ĀTMAN que representa o Supremo Regente (Ishvara), o refúgio, que reside, tanto internamente a nós mesmos, no coração do nosso SER, como externamente, na pessoa dos distintos  NĀRĀYANAs os quais funcionam como o coração em cada mundo e em cada COSMO. Este mantra expressa, portanto, a rendição ao sagrado e sintetiza a totalidade do Suddha Yoga ensinado por Krishna a Arjuna na Gītā. Sua universalidade é evidente, uma vez que encontra representações, ainda que parciais, nas mensagens de todos os grandes líderes religiosos, místicos e filósofos de todos os tempos. Jesus de Nazaré, por exemplo, pedia aos seus discípulos que orassem diariamente, dizendo, "faça-se, a tua vontade, assim no céu como na terra" e também, "faça-se a tua vontade e não a minha".

*** Imaginemos um garoto que, perseguido por um animal furioso, grita por auxilio.  Quando vê o seu pai, o garoto corre aos seus braços e se entrega à sua proteção. Já não corre, nem se esforça em combater o animal; ele se entrega plenamente à destreza de seu pai e, seguro da sua proteção, sente sua alma cheia de felicidade.

Em suma, depreende-se do texto de  Sri Vajera, este mantra, quando realizado de forma consciente, promove o estado de meditação e nos conduz, respectivamente, pela  Saguna Dhyana; Nirguna Dhyana; e Suddha Dhyana.  -- ou seja, nos conduz àquele ancestral e puro – Suddha – Yoga transmitido por Krishna a Arjuna na Gita, e que vai se revelando progressivamente acessível, em conformidade com a nossa conduta nos campos de batalha, interior e exterior, da vida cotidiana. Daí decorre a importância e o contexto da prática introdutória de meditação objeto de nosso estudo aqui.

Próximo texto: Prática Introdutória de Meditação: as Três Dhyānas do Śuddha Raja Yoga
Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 30 de setembro de 2016
(Atualizado em 18.02.17)

(Śuddha Rāja Yoga)