Śraddhā: a Sintonia Integral com a Luz Natural do Coração

 Bhāvana Namaḥ: "Só por hoje!" a Sintonia Integral com a Luz do Coração (Śraddhā)
Steve Jobs, admirador de Yogananda e da filosofia do coração.
Regra, lei, justiça, justeza, juízo, lógica, sistema, plano, adequação, método, modelo, axioma – tudo isto traduz "nyāya" e expressa o que queremos formular aqui. Trata-se de aferir e verificar o cumprimento da disciplina espiritual a partir da sintonia fina da mente com o sagrado no coração.

I. Śraddhā: Conduta em Sintonia com o Sagrado no Coração

A conduta orientada por śraddhā revela os cinco componentes da disciplina espiritual, tratados no texto anterior e resumidos a seguir, sobre os quais se deve refletir durante o processo de identificação e correção dos desvios que nos afastam do caminho do coração – aquele cujo sentido é  sentir o aqui e o agora:

1. Saṃkalpa: A firme resolução da faculdade da vontade de não se afastar da meta suprema;
2. Ṛṣi-nyāsa: Certificar-se de estar revestido por śraddhā, a marca característica da manifestação cósmica da Vontade Suprema no indivíduo;
3. Viniyoga: Lembrar-se sempre que todo o imprevisto é apenas uma nova oportunidade para se desenvolver e adaptar métodos específicos para cada nova situação que exige um novo primeiro passo no sentido da convergência para a meta;
4. Satya Tyāga: Certificar-se de estar inteiramente consagrado à manifestação da Vontade Suprema, renunciando (samnyāsa) de forma impessoal a todas as coisas que impeçam a entrega (tyāga) de si mesmo ao Supremo; e
5. Upasthāna: O agradecimento pelo estado de sintonia com o Supremo. Quando surge um imprevisto, se nos lembrarmos de sermos gratos por ele, ganhamos uma nova oportunidade para recuperar o estado de Sākśī Bhāvana.

Śraddhā designa este quíntuplo poder de convergência para a meta (Brahma-sāmīpya), oriundo da faculdade da vontade e manifesto como a convicção íntima, o ardor e a luz do coração que ilumina e dá foco à razão. Representa a conduta (karma) orientada pela precedência de Śreyas (anseios superiores) sobre Preyas (anseios de origem emocional) e o nosso compromisso definitivo (Ananta he!)  em  não permitir que se profanem os ambientes e os espaços interiores e exteriores sob a nossa guarda.

II. Nyāya Ekatāla: Aferição da conduta e da sintonia (atenção plena) com o sagrado no coração.

1. Bhāvana Namaḥ! "Só por hoje", comprometo-me, integralmente, com a rendição (Namaḥ) de todo o meu ser à percepção amorosa do instante presente, onde se dá a unidade do mundo e de todas as coisas (Bhāvana).

2. Bhāvana Namaḥ! "Só por hoje", comprometo-me, integralmente, em manter o foco e a atenção no sentimento de Bhāvana, certificando-me, deste modo, de estar, plenamente, estabelecido em Sākśī Bhāvana.

3. Bhāvana Namaḥ! "Só por hoje", comprometo-me, integralmente, com este sentido do jejum de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos, que nos leva a sentir a imanência do amor universal e, consequentemente, a experimentar do sentimento de  compaixão com todos os seres.

4. Bhāvana Namaḥ! "Só por hoje", comprometo-me, integralmente, em me dirigir aos meus afazeres com atenção plena aos sinais e aos chamados do cotidiano para a intensificação e aprofundamento da prática ininterrupta de Bhāvana -- a disciplina de convergência para o Ser (Brahma-sāmīpya) que expressa o amor universal em ação e promove a gradual transmutação das energias materiais que alimentam os cinco sentidos e a mente ao longo do dia, suprindo o corpo de Prāṇa (energia vital).

III. Rotina (Abhyāsa)

1. Saudação Inicial e Dhyāna (Meditação). Encerrar antes das 06h00.
2. Alimentação vegetariana, minimalista e simples, sem  laticínios, açúcar, etc.
3. Nyāya EkatālaAferição da conduta e da sintonia com o sagrado no coração (Atenção Plena). Diário, Agenda e Correspondência Pendente. Encerrar antes das 08h00.
4. Iśvara Prajñāstra (Trabalhos de Convergência). Encerrar antes das 18h00.
5. Haṃsa Gati (A Marcha do Cisne): o exercício do sentimento de Bhāvana e da Atenção Plena ao momento presente, sem destino ou meta, a não ser a sintonia, por meio do  Haṃsa Prāṇāyāma, do alento vital com o coração do mundo. Encerrar antes das 20h00.
6. Karma EkatālaAferição da Reta Conduta seguida de curta Meditação (Dhyāna). Encerrar antes das 21h30.

IV. Pequenas Observâncias Litúrgicas (cuidados para não perder a sintonia com o sagrado)

Krishna explica a Arjuna na Bhagavad Gītā como a prática fervorosa do conhecimento adquirido conduz à realização suprema.
Os Seis Componentes da Atividade Diária do
Śuddha Iogue
IV.1. As seis Componentes da Atividade Diária do praticante de Śuddha Rāja Yoga. Krishna explica a Arjuna na Bhagavad Gītā como a prática fervorosa do conhecimento adquirido conduz à realização suprema. Tal disciplina, que pressupõe a renúncia (samnyāsa) ao fruto das ações e  o desligamento de todas as coisas que impedem a consagração de si mesmo à manifestação da Vontade Suprema, está representada no paradigmático verso BhG 18.66, que trata da genuína dedicação e entrega (satya tyāga) de si mesmo e, consequentemente, de todas as ações (karma), ao Supremo. Esta entrega ao Supremo tem sido expressa ao longo dos séculos dos mais variados modos pelas distintas religiões e sistemas de filosofia. Um exemplo clássico do hinduísmo é o que ocorre na passagem X.75 do Mānava Dharma Śāstra,  onde se lê:

अध्यापनमध्ययनं यजनं याजनं तथा।
दानं प्रतिग्रहश्चैव षटूकर्माण्यग्रजन्मनः॥
adhyāpanam/adhyayanaṁ yajanaṁ yājanaṁ tathā.
dānaṁ pratigrahaś/caiva ṣaṭūkarmāṇyagrajanmanaḥ.
(1) Estudo e (2) ensino; (3) realização de sacrifícios e
(4) condução de rituais; e a (5) realização e
(6) aceitação de doações são as seis principais atribuições das pessoas
de nascimento brâhmane.  (Mānava Dharma Śāstra X.75)

São estes mesmos versos que dão origem à formulação das Seis Componentes da Atividade Diária do praticante de Śuddha Rāja Yoga, conforme destacado a seguir:

(1) Adhy-ayana. O estudo sobre a essência do sagrado.
(2) Adhy-āpana.  Istruir os demais sobre Adhy-ayana.
(3) Yājña, Realizar o sacrifício de si mesmo, que significa contemplar o Ser (Ātman).
(4) Yājana. Realizar sacrifícios pelo próximo. Significa o nosso esforço para ver e compreender o sagrado, sempre manifesto em todas as experiências da vida. Implica em ter compreendido e realizado os três deveres anteriores.
(5) Dāna. Fazer a doação de si mesmo é o maior ato de caridade. Significa a rendição ao Sagrado.
(6) Prati-graha. Plena aceitação da graça, ou da Vontade Suprema.

IV.2. Minimalismo e Simplicidade

(1) Reduzir as necessidades ao essencial e convergir para a marca-uniforme. Estabelecer um cronograma de trabalho e uma rotina flexível (a partir de ferramentas de gestão -- Bússola, Wunderlist, Google Calendar, etc.). Agendar as prioridades ao invés de priorizar o que está na agenda. Minimizar o número de decisões a se tomar, elaborando listas curtas  do tipo "to-do-task-list" e "follow-up". Reduzir vestuário (tipos e cores). Repensar mobilidade, moradia, biblioteca e recursos digitais. Minimizar a interferência de ruídos externos (TV, rádio, redes sociais, telefone celular, etc.). Alimentação vegetariana simples (ausência de açúcar; pouco sal, temperos e condimentos).

(2) Bhāvana Namaḥ! Entrego-me, agora, de todo o coração, ao cumprimento dos meus deveres e à busca da perfeição no trabalho, em cada minúscula ação. Se neste meu esforço de quitação das três dívidas (débito com a esfera das deidades das quais herdamos a nossa própria identidade espiritual; débito com os sacerdotes, gurus, sábios e santos que nos deixaram como herança cultural o conhecimento espiritual; e débito com os nossos ancestrais, que possibilitaram o nosso nascimento neste mundo) houver algo de impuro, impróprio, inadequado, ou que seja excessivo, rogo aos nobres seres do plano divino que me perdoem.


Próximo texto: Convergindo para a Pura Morada do Ser
Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2016
(atualizado em 20.11.17)

(A disciplina pessoal de Śuddha Yoga Brahma Vidyā)