Ensaio Autobiográfico

Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser.
Chega a idade em que todos começamos a avaliar a vida. Fazemos um balanço e vamos compondo um roteiro com as experiências acumuladas. Em geral, iniciamos esse roteiro quando sentimos que nos aproximamos da morte, ou seja, quando já é muito tarde para se poder apreciar sem pressa o filme de nossa própria história. Se queremos extrair desse filme o registro do que de melhor a vida nos ofereceu, contudo, o mais apropriado é iniciar o quanto antes este balanço, onde nos vemos, frente a frente, com cada um e todos aqueles cujas memórias irão, de qualquer modo, nos visitar em nossos instantes finais. Onde ficamos em falta? O que faltou corrigir? Este balanço nos prepara gradativamente para enfrentar o mistério da morte sem receio de nada e com a certeza que tiramos da vida o proveito e as experiências de que necessitávamos. Ele nos alerta também para as devidas correções de curso que impedem os arrependimentos quando não se tiver mais tempo para voltar atrás e realizar o que se sente que ficou faltando. O tempo é agora.   Doenças e dor são melhor assimiladas quando se está em paz com a consciência. Velhos hábitos, antigas amizades, dissabores, tudo toma forma e vida em nossa mente, podendo tanto iluminar como assombrar o nosso caminho e o nosso encontro com a morte. Afinal, até mesmo uma velhice sem doenças e dores pode ser solitária, triste e agonizante.

Neste Diário, estimulo o diálogo da consciência, o único capaz de nos levar a compreender e aceitar de forma amorosa a nossa própria finitude. Quando um Diário assume a forma de Memórias, é porque já se está a refletir, sem receios, sobre a proximidade, ou certeza, da própria morte. E o que é a morte? A morte ainda é um tabu. Evita-se falar, discutir, ou mesmo se preparar para a morte. Contudo, ela constitui a única certeza incontestável deste mundo.

Alguns podem pensar que escrevo assim porque já estou bem perto de morrer. Na verdade, começo cedo estas memórias porque espero ter pelo menos mais uns vinte anos para poder concluir este projeto de reflexão sobre as coisas que vivi e o modo conforme as vivi. E se há um sentido maior em tudo isto, e esta é a minha aposta, é deste sentido que espero estar, a cada dia que passa, me acercando mais.  Para não esmorecer, para evitar as distrações que nos desviam do ideal, faço estas reflexões olhando para mim mesmo até me descobrir como aquele observador neutro, que não julga, mas que simplesmente vê a si mesmo, para que esta simples visão vá, aos poucos reunificando o ser cindido em sua relação com o mundo.

O observador observa e aguarda o surgimento da vontade capaz de coibir que a rotina e os velhos hábitos se imponham uma vez mais. Aguarda que se alcance aquela postura (āsana) que lhe torne possível tomar para si o assento do Ser. Somente assim cada novo dia deixa ser o mesmo e velho dia, que se repete sempre, sem que mudemos e aceitemos nos aproximar de nós mesmos.

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Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 01 de outubro de 2016
(atualizado em 18.12.16)

 (Saṁjñā-artham)