Minha disciplina pessoal de Śuddha Yoga Brahma Vidyā


O poder de convergência para a meta relaciona-se com a capacidade de RENASCER a cada novo dia, vivendo-o de forma tão ou mais intensa que o anterior.
Colagem iconográfica sobre três estágios distintos da disciplina pessoal

Não existe ponto de chegada na jornada para o Infinito. A meta está em não retroceder no caminho de eterna aproximação ao Ser. O poder de convergência para a meta (Brahma-sāmīpya) relaciona-se com a capacidade de RENASCER a cada novo dia com mais foco, vivendo-o de forma tão ou mais intensa que o anterior.  “Entrarás no seio da luz, mas jamais tocarás a chama”, disse, sabiamente, a novelista Mabel Collins, em Luz no Caminho. É esta mesma luz interior e eterna que Santo Agostinho reconhece como o Verbo, a “Luz do Coração” – “a Imutável Luz da Verdade e da Virtude que governa o mundo e até as folhas tremulando nas árvores”. Designado na Bhagavad Gītā, tecnicamente, como śraddhā (a bússola do processo de meditação, simbolizada  na convicção íntima, no ardor e na amorosa luz do coração que ilumina e dá foco à razão), esta Luz do Ser Infinito representa o termômetro espiritual da faculdade da vontade, orientando e aferindo a nossa conduta (Karma) durante as nossas atividades diárias. Daí a importância de se meditar e refletir, logo após se levantar e ao se deitar, sobre os cinco componentes desta verdadeira bússola espiritual que é śraddhā:
1. Saṃkalpa (Decisão, Resolução): A firme resolução da faculdade da vontade de não se afastar da meta suprema. Saṃkalpa significa motivação e força de vontade para desenvolver a energia interior e alinhá-la, de forma definitiva (Ananta he!) com a meta estabelecida. Significa a firme resolução de manter o foco e não se desviar do coração e do cumprimento das prioridades; o que implica em evitar as distrações e vigiar os mais inocentes pensamentos;
2. Ṛṣi-nyāsa (Invocação e internalização da divindade externa): a capacidade de fazer de toda atividade uma Invocação de unificação, no coração, com o Ser Supremo. Significa certificar-se de estar atuando sempre como instrumento do sagrado; 
3. Viniyoga (Iniciação): a iniciativa e a iniciação que nos revelam o caminho do coração e nos capacitam a começar de onde se está, com desapego, simplesmente dando o primeiro passo e empregando o primeiro minuto no sentido da convergência para a meta. Representa a capacidade de desenvolver e adaptar métodos específicos para cada situação. Os Yoga Sūtras afirmam que a prática de saṃ-yama (conjunção de dhāraṇā [concentração e foco], dhyāna [meditação] e samādhi [êxtase]) favorece o desenvolvimento destas intuições relativas à formulação de viniyoga (Yoga Sūtra 3.6: "tasya bhūmiṣu viniyogaḥ"  -- o processo prático [viniyoga] para isto [tasya] ocorre gradualmente [bhūmiṣu]). Viniyoga implica na lembrança constante de que todo o imprevisto é apenas uma nova oportunidade para se desenvolver e adaptar métodos específicos para cada nova situação, que exige um novo primeiro passo no sentido da convergência para a meta; 
4. Satya Tyāga (Dedicação e Entrega): a consagração à Vontade Suprema, renunciando (samnyāsa) de forma impessoal a todas as coisas que impeçam a entrega (tyāga) de si mesmo ao Ser Absoluto. Representa a dedicação, de forma impessoal, de todas as ações à divindade, de forma que cada novo passo esteja sempre vinculado e em consonância com o processo gradual de construção e reforma, iniciado a partir da decisão de dedicação do primeiro minuto.  Krishna explica a Arjuna na Bhagavad Gītā que tyāga pressupõe a renúncia (samnyāsa) à tudo que impeça o foco na consagração de si mesmo à Vontade Suprema, manifesta no coração. E por fim; 
5. Upasthāna (Conclusão ou Saudação Final): o agradecimento pelo estado de sintonia com o Ser, que é Sākśī Bhāvana, e pela oportunidade de poder dar, dentro deste espírito, início às atividades que o destino nos reserva. Sākśī (testemunha) expressa a capacidade de manter o foco e observar impassivelmente os eventos que fazem o mundo girar; e Bhāvana representa o exercício da atenção plena para poder reconhecer e deixar-se guiar pela presença imanente do sagrado em tudo na vida. Se nos lembramos de sermos gratos por tudo, inclusive pelos imprevistos que nos distraem, ganhamos, com esta simples lembrança, atenção e foco, ou seja, uma nova oportunidade para nos aproximar do coração e do estado de Sākśī Bhāvana.
Esta é a essência (śuddha) da disciplina pessoal relativa à ciência (vidyā) sintética (yoga) do sagrado (Brahman):

(i) Sempre que possível, realizar a prática de meditação (Dhyāna)  logo após acordar, ou seja, durante o Brahmakāla (período que se estende das 02h00  às 06h00);

(ii) Sob a influência da energia daí haurida (Brahma Śakti), que se retém e atualiza no ser humano como śraddhā (a luz do coração que ilumina a razão; a convicção íntima e o ardor da energia do amor universal em ação), refletir sobre o despertar do novo dia, registrar as experiências relativas ao processo de renascimento da consciência em cada novo amanhecer e organizar a agenda de acordo com a  disciplina da ação (Karma);

(iii) Em seguida, dirigir-se para os seus afazeres em Sākśī Bhāvana, sempre atento aos sinais e aos chamados do cotidiano para a intensificação e aprofundamento da prática ininterrupta de Bhāvana -- a disciplina de convergência para o Ser (Brahma-sāmīpya) que expressa o amor universal em ação e promove a gradual transmutação das energias materiais que alimentam os cinco sentidos e a mente ao longo do dia, suprindo o corpo de Prāṇa (energia vital).

O Critério de Aferição de Conduta conforme a Śuddha Yoga Brahma Vidyā:
a precedência dos anseios altruístas (Śreyas) sobre os passionais (Preyas)

De acordo com a Bhagavad Gītā a sabedoria ióguica (prajñā; oriunda de Buddhi-yoga) manifesta-se de forma objetiva como a capacidade de agir no mundo com maestria (yoga), ou seja, em conformidade com a precedência dos anseios superiores (Śreyas) sobre aqueles de origem emocional (Preyas) (BhG 2.49 e 2.50 e BhG 2.58 a 2.67). Daí a importância de se reconhecer e avaliar corretamente, em cada minúsculo movimento da consciência, a fonte dos estímulos e dos motivos que orientam a nossa conduta. Cada trabalho que realizamos, cada pensamento que estimulamos, produz uma impressão mental chamada saṃskāra e é a soma total de tais impressões que chamamos de caráter. Logo, o caráter é obra de cada um. No dizer de Aristóteles, para o bem ou para o mal, o homem se torna aquilo que ele repete repetidas vezes repetidamente. Nascemos em mistério, vivemos em mistério e morremos em mistério (Huston Smith). E, no entanto, semeamos o nosso próprio destino. Semeamos as nossas ações em nossos pensamentos; os hábitos, em nossos atos; o caráter, nos hábitos; e o destino, no caráter (Marion Lawense). Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive (Paul Bourget), afastando-se, portanto, do sagrado que reside no coração. Daí, enfim, o alerta de Lao Tse em relação à nossa conduta:
1. vigiar os nossos pensamentos, pois estes se tornam palavras;
2. selecionar as nossas palavras, pois estas se convertem em ações;
3. cuidar das nossas ações, pois estas formam hábitos;
4. ficar atentos aos nossos hábitos, pois estes formam o nosso caráter; e
5. zelar pelo nosso caráter, pois ele modula a nossa vida e forma o nosso destino.
A Oração do Amanhecer, atribuída (embora sem comprovação) a São Francisco de Assis, guarda a essência da herança espiritual da matriz judaico-cristã e expressa uma forma de aferição da disciplina de convergência para o Ser (Dhyāna, Karma e Bhāvana) descrita acima, bem como do ideal de manter o foco e o estado de meditação, ou de conexão com o coração, o dia todo:

Senhor,
No silêncio deste dia que amanhece,
Venho pedir-Te a paz, a sabedoria, a força.
Quero ver hoje o mundo com os olhos cheios de amor.
Quero ser paciente, compreensivo, manso e prudente.
Quero ver além das aparências os teus filhos,
Como tu mesmo os vês e assim não ver senão o bem em cada um.
Cerra meus ouvidos a toda calúnia.
Guarda minha língua de toda a maldade.
Que só de bençãos se encha o meu coração.
Que todos os que de mim se acercarem sintam a Tua presença.
Reveste-me de Tua beleza, Senhor.
E que no decurso deste dia eu Te revele a todos.

Esta Invocação franciscana representa uma verdadeira eulogia à atenção plena aos chamados do cotidiano para a intensificação e aprofundamento da prática ininterrupta de meditação, cuja marca característica (lākṣaṇa) é śraddhā – o ardor do coração que orienta o processo de convergência para o Ser (Brahma Sāmīpya). Ela sintetiza os doze passos praticados como um modo de vida pelos grupos de recuperação das diversas formas de adicção, que se comprometem, a cada novo dia, a manterem os seus objetivos somente por aquele dia. Este mesmo espírito de "Só por Hoje" está também presente nesta Invocação franciscana, que se traduz como abstinência, ou jejum espiritual, de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos e tudo que possa distrair a nossa atenção do sagrado. Tal rendição em Espírito de amor universal denomina-se, tecnicamente, Bhāvana Namaḥ -- a rendição (Namaḥ) ao sentimento de amor e compaixão decorrentes da nossa percepção da unidade do mundo e de todas as coisas (Bhāvana).

Próximo texto: Ananta he! "Para sempre", a precedência de Śreyas sobre Preyas
Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 03 de outubro de 2016
(atualizado em 14.10.17)

(Ātma-Yoga Mārga)