O que é a Marcha do Cisne (Haṃsagati)?

Haṃsagati, desse modo, nomeia o estado de meditação alcançado quando estamos em movimento, em marcha – “gati”, no sânscrito.
A prática introdutória conhecida como Haṃsagati (marcha do cisne) origina-se do Haṃsa Prāṇāyāma, discutido brevemente no artigo Sākśī Bhāvana. O termo sânscrito “Haṃsa” significa “cisne” e simboliza o Espírito (Ātman).  A expressão “Haṃ-sa” significa, literalmente “Eu sou (‘haṃ) Aquilo (sa)”, ou seja, o Espírito.  Haṃsagati, desse modo, nomeia o estado de meditação alcançado quando estamos em movimento, em marcha – “gati”, no sânscrito. Em sua forma mais simples, Haṃsagati assemelha-se às Meditações em Movimento (Walking Meditations) do budismo e pode ser descrita como uma caminhada descontraída, sem destino ou meta, a não ser o exercício da atenção plena ao momento presente e da busca de sintonia do alento vital com o coração do mundo. Não há, contudo, uma única situação concreta da vida em que esta capacidade, de cultivar em si mesmo a essência do sagrado, não possa ser praticada e desenvolvida.

O som “Haṃ-sa” exprime o ideal de fazer do próprio ato de respirar uma meditação. Deriva do anseio de que cada inspiração e expiração nossa esteja em sintonia e em ressonância com o Supremo Vir-a-Ser do mundo. Este ideal de sintonia torna manifesta a onomatopeia do processo de respiração: “haṃ-sa”. A inspiração revela o som “haṃ”; e a expiração, o som “sa” e assim, aos poucos, todo o nosso processo de respiração vai se tornando o  Haṃsa Prāṇāyāma.  Este prāṇāyāma é, algumas vezes, chamado “a-japa mantra”, porque é realizado sem a utilização do “japamala”, ou rosário, uma vez que expressa o som do processo involuntário de respiração. Ao trazermos à consciência e repetirmos mentalmente este imperceptível mantra, natural do processo de respiração e realizado, em média, vinte e quatro mil vezes por dia, adquirimos foco e energia para nos aproximamos da nossa real identidade espiritual.  

Haṃsagati, desse modo, nomeia o estado de meditação alcançado quando estamos em movimento, em marcha – “gati”, no sânscrito.
Thich Nhat Hanh conduzindo uma Meditação em Movimento.
Não é necessário mais de um ou dois minutos de prática para se começar a sentir os resultados de Haṃsagati.  Daí esta forma de meditação ser a nossa grande aliada sempre que estivermos ocupados e nos sentirmos apáticos, depressivos; ou pelo contrário, ansiosos, estressados e com necessidade de relaxar. Haṃsagati, entretanto, propõe-se como uma prática capaz de nos levar a fazer da meditação uma atividade para o dia todo, em tempo integral. Pode iniciar-se de pequenas e descomprometidas caminhadas; mas então, a partir destas mesmas caminhadas, experimentam-se os próximos passos e, assim, a vida toda vai se tornando a expressão de uma intensa e profunda meditação de onde emana o sentimento de Bhāvana, ou de unidade, conforme expresso no conhecido mantra “OM Haṃsa So ‘haṃ” – OM, o Espírito, Este sou eu. Este mantra também unifica e identifica os dois modos onomatopeicos da respiração: “Haṃ-sa” e “So ‘haṃ” – ambos mantras conduzem aos mais elevados estados da alma. Muitos adeptos do So ‘haṃ Prāṇāyāma afirmam que esta modalidade de prática produz calma, tranquilidade e um estado de relaxamento profundo. Tal é a energia que se irradia destas formas de meditação que elas influenciam e induzem esse mesmo sentimento de Bhāvana nas pessoas à nossa volta. Um exemplo disto pode ser visto nas “Walking Meditations” coletivas, conduzidas pelo monge vietnamita Thich Nhat Hanh. Segundo uma das técnicas zen budistas que ele pratica, “ao inspirar, devemos dizer para nós mesmos, ‘eu cheguei’; e ao expirar, ‘estou em casa’.”  Deste modo, ele explica, “transcendemos as distrações e residimos na paz do momento presente”.  Contudo, acertadamente, ele faz questão de deixar claro: "nós não temos que ir a lugar algum para obter a verdade; só precisamos nos harmonizar para que as coisas se revelem nas claras águas do nosso coração".

Haṃsagati, desse modo, nomeia o estado de meditação alcançado quando estamos em movimento, em marcha – “gati”, no sânscrito.
Francisco Barreto, nas atividades da Fazenda Mãe Natureza e
em uma caminhada na Serra de Itabaina.
Cabe ressaltar que as práticas de meditação em movimento não são muito explicitadas com essa designação fora do budismo, até porque as Haṃsagatis já estão compreendidas no entendimento mais amplo de Bhāvana e de Śuddha Prāṇāyāma.  Além disto, no caso dos praticantes mais avançados, o Bhāvana e o Śuddha Prāṇāyāma são exercitados de forma tão discreta e imperceptível, que a sua prática se confunde com as atividades mais corriqueiras e triviais do dia-a-dia.  O segredo, neste caso, está na atenção plena ao instante presente, que nos leva a perceber o rito que faz de cada minúscula atividade, uma meditação. Esta discrição do praticante, que torna a sua meditação invisível aos olhos das pessoas em geral, contudo, não impede que a energia desta forma superior de Meditação na Ação beneficie e influencie àqueles à sua volta.  Um exemplo da irradiação desta energia decorrente da meditação na ação, que  é a produção do sentimento de  Bhāvana, pode ser visto nos trabalhos sociais e com a terra, desenvolvidos na Fazenda Mãe Natureza, à beira do rio S. Francisco, sob a direção do instrutor espiritual do Śuddha Dharma Mandalam, Francisco Barreto. Ele mesmo, vez por outra, também organiza algumas caminhadas coletivas, conduzindo as pessoas à Serra de Itabaiana, em Sergipe, para que o grupo, como um todo, possa experimentar o poder regenerador deste exercício de marchar com a atenção plena, aprendendo a meditar enquanto se caminha e enfrenta os desafios do caminho.

Muitos estudiosos relacionam o mantra Haṃsa com a região do corpo caloso do cérebro, que tem a forma de um cisne, e se diz ser a área responsável pelas intuições e o desenvolvimento espiritual de uma pessoa. Desta região do corpo caloso flui o líquido cérebro-espinhal por onde ascende, quando estimulada pelas práticas de prāṇāyāma e meditação, a energia kuṇḍalinī, que conduz aos estados de êxtase, ou samādhi.  

Em suma, o esforço de fazer de Haṃsagati uma prática contínua de meditação na ação, com atenção plena o dia todo, manifesta o mantra natural presente em nossa respiração.  Ao trazermos este mantra para a nossa consciência, fazemos de nossa própria respiração um poderoso prāṇāyāma da classe Śuddha, que, aos poucos, se transforma na meditação idealizada e que se mostra capaz de nos lembrar de nossa eterna conexão com a fonte de energia cósmica, que é o Espírito (Ātman) presente em nosso próprio coração, bem como no coração do mundo.

Rio de Janeiro, 08 de dezembro de 2016.
(Atualizado em 19.02.17)

(Śuddha Rāja Yoga)