A Opção pelo vegetarianismo desde a infância (1966)

Mahatma Gandhi na Vegetarian Society (1931)
Mahatma Gandhi na Vegetarian Society (1931)
I. Um pouco de história pessoal e o paradoxo da carne

Conforme menciono em "Sorriso Interior desde 1966: Vegetarianismo, Milo e D. Celina" sou vegetariano desde 1966, quando tinha nove para dez anos de idade. Não fazia ideia à essa época, obviamente, das consequências desta opção e dos caminhos que teria que desbravar para sobreviver em uma sociedade conservadora e pouco simpática com os diferentes e as minorias de todos os tipos. Venho de uma família onde o vegetarianismo sempre foi uma bandeira. Minha mãe e alguns tios maternos já eram vegetarianos quando nasci. Meu avô Edison Barretto, desde o início do século XX, já falava dos benefícios da dieta e da ética vegetariana das quais sempre procurara se aproximar. Minha mãe tornou-se "vegetariana" (sim, com aspas) no início dos anos cinquenta, época em que sequer havia o óleo de cozinha, de modo que aqueles que optavam pelo vegetarianismo tinham que fazê-lo continuando a consumir banha de porco, então utilizada para cozinhar. Àquela época também não haviam os supermercados e as facilidades de hoje. Quase não se encontravam verduras e legumes. Logo, era praticamente impossível decidir-se pelo "vegetarianismo", se este não fosse entendido como uma estratégia ovo lacto vegetariana de sobrevivência. 

Quando minha mãe se casou, morou uns tempos com a minha avó paterna, que não permitia interferências na cozinha e não admitia o vegetarianismo. Todas as comidas eram preparadas com carne. Até mesmo as verduras, o feijão e as sopas de legumes ganhavam produtos de origem animal "para dar mais gosto" ao alimento. Nessa época, minha mãe tinha que peneirar o feijão para evitar os pedaços de linguiça. Seria impensável argumentar que os produtos animais poderiam ser preparados separadamente. Emagreceu muito, pois quase não conseguia se alimentar. Muitos não acreditavam que ela sobreviveria e, dos médicos, ouvia apenas que a sua condição era culpa do seu próprio fanatismo. Quando, finalmente, nos mudamos para a nossa própria casa, ela logo se recuperou. Contudo, meu pai não se sentava à mesa se não houvesse ao menos um prato com carne. Desse modo, presenciei, desde pequeno, o exemplo de tolerância e compaixão do vegetarianismo praticado por minha mãe. Embora ela não comesse carne, era obrigada a lidar com as carnes, peixes e aves, que preparava conforme as exigências do meu pai e também das "visitas".  

Era o início dos anos sessenta e eu observava como minha mãe preparava com uma resignação cristã aqueles pratos de carne, sempre tendo o cuidado de preservar os demais pratos vegetarianos. Ela encontrara, na prática, uma forma de conciliar os seus ideais com as suas obrigações. Atendia às exigências de meu pai e também conseguia manter-se vegetariana, estimulando-nos a seguir o seu exemplo.  Nesse período, ao menos em casa, eu tinha confiança de que era "seguro" me servir do arroz, do feijão, das verduras e das saladas. Contudo, por volta de 1968, minha mãe ficou sem a pessoa que cuidava de mim e dos meus irmãos, enquanto ela e meu pai saiam para trabalhar. A solução foi o Parque Infantil Cásper Líbero, que fica ali do lado do campo da Portuguesa de Desportos, no Canindé. Saíamos do Colégio e, ao invés de irmos para casa, íamos para o parque, onde passávamos o dia sob os cuidados de professoras muito dedicadas. Almoçávamos e lanchávamos lá. Foi então que me dei conta das dificuldades que enfrentaria por ter me tornado vegetariano ainda criança. Quase sempre eu conseguia me virar bem, servindo-me de arroz e salada e deixando no prato, sem tocar, o feijão com linguiça e a carne.  Contudo, ainda me lembro, às quintas-feiras o cardápio era apenas macarrão com sardinha. Obviamente, eu não mexia no prato, que já vinha preparado pelas atendentes. Era, então, colocado de castigo, isolado dos outros, por indisciplina. E como o castigo não estivesse me "corrigindo", na hora do almoço, passou a vir até o refeitório a nossa supervisora, obrigando-me, à força, a engolir, até terminar, todo o prato de macarrão com sardinha. Passei a ter pesadelos por causa desse período que, por sorte, não durou muito. Com o tempo, e após terem convocado minha mãe para algumas reuniões com a diretoria, mesmo que a contragosto, aceitaram que eu poderia ser "diferente", se assim desejasse, mas que eu não teria nenhum "privilégio" -- que passasse fome, se quisesse. A partir de então, todas as quintas-feiras, eu sentava à mesa com os demais e aguardava até a hora da sobremesa, quando era servido um pequeno pudim. Então, cresci assim. Vegetariano convicto e sempre receoso de festas e outros ambientes onde não me sentia seguro para me alimentar.

Com o tempo, passei a frequentar a casa de alguns amigos e assim fui desbravando os meus próprios caminhos, até alcançar o meu primeiro emprego na unidade têxtil da Rhodia, em São José dos Campos, em 1982, onde trabalhei como engenheiro químico. As nutricionistas, naquele tempo, sequer haviam ouvido falar em vegetarianismo, de modo que a alimentação servida no refeitório da fábrica era toda com carne, não escapando nem o arroz e as saladas de folhas.  De tanto ir ao refeitório com os colegas e não encontrar absolutamente nada de que pudesse me alimentar, comecei a recusar aos convites para almoçar. Nesses momentos, encostava a porta da minha sala e fazia uma hora de meditação, o que me reanimava, deixando-me mais criativo e ativo a tarde toda. E eu notava que meus colegas voltavam do almoço empanturrados e com sono, apenas esperando o tempo passar para voltar para casa. Tudo ia bem, mas aquele simples e inocente gesto de não ir ao refeitório para o almoço, não passara despercebido da alta gerência e do próprio RH da empresa. Ele havia sido interpretado como uma postura de orgulho, arrogância e vaidade de quem se considerava superior aos demais e não queria com eles "se misturar". Esse boato logo alcançou toda a fábrica. Contudo, como um bom profissional produzindo bons resultados, minha reputação não estava de todo manchada e eu tinha a proteção daqueles que me eram mais próximos, como o meu superior imediato, o engenheiro Daniel Tavares Bastos Gama, que não se incomodava com estas minhas excentricidades. Pelo contrário, procurava me proteger das fofocas e piadas dos demais. Mesmo assim, vez por outra, eu ouvia em tom sarcástico: "engenheiro Turci, olha como a grama aqui do pátio está alta, vai lá pastar para abaixar o capim". 

Não era simples àquela época agir como agem hoje os modernos veganos, reagindo com certa agressividade e ironia fina, até. Embora não fosse a minha natureza reagir, também não era de levar desaforos para casa e não perdia a oportunidade de dar uma resposta à altura. Desse modo, certa ocasião, durante um almoço de confraternização, onde a bebida estava liberada, outra vez virei o foco das atenções: eu não bebia, não fumava, não comia carne... Afinal, o que havia de errado comigo? Por que eu era tão esquisito? Quando as pessoas bebem, necessitam de aprovação para o seu próprio comportamento que, intimamente, sabem inadequado e o fato de eu estar ali, sem beber, só fazia agravar esse sentimento quase inconsciente, mas que gerava incômodo.  Nesse dia, o sujeito que estava ao meu lado, já bastante alto, se achou no direito de me ridicularizar na frente de todos. Nada que eu não devesse aceitar calado, afinal ele exercia um cargo bem mais elevado que o meu. Começou com aquelas perguntas de sempre, que todos os vegetarianos já conhecem e sabem  aonde a pessoa quer chegar. Não muito satisfeito com as minhas respostas, inicialmente bastante diplomáticas, começou a questionar a racionalidade dos meus argumentos em defesa do meu comportamento vegetariano. Contra argumentei que não precisava apresentar razões para ser vegetariano, pois aquela era uma questão de sentimento, de coração, antes que de razão. Eu já compreendia que do ponto de vista da racionalidade vigente, o debate sempre seria inconclusivo, com ambas as partes defendendo as suas posições de uma maneira quase religiosa. Então, para encerrar a discussão, procurava dizer que não haviam "razões" nem crenças, apenas sentia compaixão pelos animais e por todos os seres vivos. Contudo, nesse almoço, quanto mais procurava me esquivar, mais acendia naquele grupo o desejo de discutir. Começavam a me perguntar se era a minha religião que não permitia, sugerindo que eu fosse um fanático, ou um maluco qualquer. 

Eu não tinha à essa época a compreensão daquilo que hoje os psicólogos chamam de "paradoxo da carne".  Como se sabe, o paradoxo da carne surge da percepção de que você pode ser um apaixonado por animais e, ao mesmo tempo, um carnívoro convicto. Por isto, as pessoas evitam pensar nos animais sofrendo e se sentem desconfortáveis ante a presença de tudo que lhes lembre disto, pois a ideia de satisfazer o prazer de saborear a carne é, por si só, ao menos perturbadora.  Eu nada sabia sobre essa dissonância cognitiva que aflige os carnívoros e que vem à tona como um estado psicologicamente desagradável. Estudos contemporâneos revelam que utilizamos todo o nosso aparato racional para atenuar a nossa culpa, ludibriando a nós mesmos com a falsa sensação de que é possível distinguir os animais que consumimos daqueles que consideramos "domésticos". Esta estratégia pseudo-racional é estabelecida a partir do cultivo de, basicamente, quatro crenças cegas e, aparentemente, ingênuas: o consumo de carne seria: (1) algo natural, foi assim desde o início da evolução humana; (2) algo normal e que a maioria faz; (3) um hábito alimentar necessário, pois precisamos da proteína animal; e acima de tudo, (4) não há nada de anti-ético, ou de mau, em se alimentar daquilo que apetece ao paladar. O problema é que o fato de uma pessoa vegetariana saudável existir coloca em xeque toda essa estratégia inconsciente para justificar o nosso desejo de comer carne.  Dá-se mais ou menos assim em todos os grupos vitimados por uma ou outra forma qualquer de adicção. Os fumantes inveterados, por exemplo, têm dificuldades para admitir que o cigarro pode levar ao câncer de pulmão, ou de garganta, por exemplo.  

De alguma forma eu intuia, mas não posso dizer que sabia, que a cultura como um todo desempenhava esse papel de nos inibir, impedindo-nos de uma reflexão mais profunda e que nos levaria a ter dificuldades para aceitar que é normal conviver com alguns animais no lar e outros no prato, muito embora esta seleção fosse completamente arbitrária. Eu não sabia do poder desta "camuflagem" linguística que nos possibilita desidentificar a carne do sofrimento daquele grupo específico de animais pelos quais passamos a não demonstrar compaixão. Contudo, já percebia que, talvez por comodismo e covardia intelectual, em vez de questionar o hábito de se alimentar de produtos de origem animal, as pessoas preferiam se deixar levar pela cultura onde haviam sido criadas, optando por driblar a sua própria racionalidade e amainando, desta maneira, o seu sentimento de culpa. Se em algumas culturas comer carne de vaca era crime, haviam também aquelas onde se alimentar de carne de cachorro, ou de cavalo, era algo absolutamente natural. Se você não quer abrir mão de satisfazer o seu desejo, hoje compreendo bem melhor, basta aceitar, com base nas quatro crenças fundamentais do paradigma da carne, que os animais escolhidos como alimentos não tem sentimentos e são menos inteligentes que aqueles escolhidos como animais domésticos. 

Somente um vegetariano dos pioneiros sabe lidar com a contingência desagradável de deflagrar um mal estar entre aqueles que estão se servindo de carne e se sentem desconfortáveis porque você não está fazendo o mesmo. Por outro lado, já estava cansado de ouvir a todo momento, vindo do nada, afirmações como "a alface também é um ser vivo, você não acha que ela também sente dor?" Além de tudo, eu sentia ali, naquela presunção do meu colega, a presença da premissa de que a carne era, de alguma forma, um fator de afirmação da própria masculinidade, em especial, o churrasco que ele adorava e considerava comida de macho. Desse modo, mesmo sem a plena consciência de que a minha presença naquele almoço de confraternização colocara o paradoxo da carne no centro das atenções, resolvi reagir de forma mais dura e quase rude, dizendo:
-- Está certo. Vocês querem entender como me sinto? Querem entender como vejo esta nossa discussão? Imaginem a seguinte situação. Você sofre um acidente de avião e cai em uma região habitada por uma tribo de canibais, que presenciam o acidente e imaginam que você é o deus deles, que desceu dos céus. Eles querem te homenagear e lhe oferecem um banquete regado a carne humana. Percebendo que a iguaria não te apetece eles passam a lhe indagar sobre quais as suas "razões" para você não aceitar comer carne humana. Pois bem, a mesma dificuldade que vocês teriam com os canibais é a que sinto agora para explicar a vocês porque não consumo produtos de origem animal. 
Não preciso dizer que, sendo obrigados a verem o que se recusavam a ver, todos se sentiram ofendidos e aquela fala praticamente encerrou aquele almoço que já se arrastava mais que devia. 

Em outra ocasião, numa festa de final de ano, realizada em uma mansão que a Rhodia tinha na República do Líbano, em São Paulo, o gerente geral do grupo Rhodia, o então renomado Edison Vaz Musa, aproximou-se da rodinha onde eu me encontrava. Para os engenheiros iniciantes, isto era uma honra sem igual. Dirigiu-se a mim e disse estar muito satisfeito com os meus resultados, sempre reportados a ele pelos meus superiores. Disse que eu teria uma carreira executiva brilhante e aproveitou para me dizer de alguns cuidados que eu deveria tomar se quisesse, de fato, galgar aqueles passos.  Eu deveria aprender a beber socialmente e também repensar os meus hábitos alimentares. Ser vegetariano era, certamente, um obstáculo, era algo antissocial, que prejudicava, inclusive, os negócios. Os grandes líderes necessitavam ser sociáveis. Deveriam saber receber e também se sentirem confortáveis nos banquetes, festas e outros eventos empresariais. Disse-me que, para ser lembrado nas próximas promoções de carreira, pensasse seriamente naquilo, pois o ambiente corporativo era extremamente competitivo. Em resposta, enquanto segurava, socialmente, o meu copo de guaraná, disse-lhe que não sabia ser competitivo com os meus pares, e que minha motivação era unicamente o meu anseio de superar a mim mesmo. Se o fato de ser vegetariano e de não consumir bebidas alcoólicas representassem obstáculos ao meu progresso profissional, eu renunciava a ele, pois me sentia feliz sendo como era e fazendo exatamente o que já fazia. Musa deu um sorriso amarelo, simplesmente pediu licença e nunca mais o vi. Meus colegas me admoestaram fortemente. Como pudera ser tão desrespeitoso? Como pudera desperdiçar aquela oportunidade ao estar frente a frente com o executivo número um da empresa e considerado um dos mais bem sucedidos de todo o Brasil?  

Logo em seguida, saí de férias para me casar e viajar em Lua de Mel. Quando retornei, soube que o Musa havia dito aos meus superiores diretos e ao próprio diretor da unidade Rhodia de São José dos Campos, que eu representava um perigo para a organização e que, independentemente das minhas avaliações de desempenho altamente positivas, ele queria o meu desligamento da companhia. Era o período da crise do petróleo dos anos oitenta. Meus superiores sabiam das dificuldades que eu enfrentaria e procuraram me defender como puderam. Conseguiram para mim que eu continuasse na empresa até conseguir me recolocar no mercado de trabalho. O próprio RH da Rhodia identificou algumas oportunidades e agendou para mim algumas entrevistas. Assim, não precisaria ser demitido, o que "mancharia" o meu curriculum. E foi assim que tendo sido aprovado em entrevista na CEBRACE pude apresentar o meu pedido de demissão à Rhodia. Pouco mais tarde, receberia uma proposta vantajosa da Monsanto e me transferiria para lá. O resto é história, conforme descrevi em "Sorriso Interior: O início da Jornada de Volta", onde apresento, inclusive, as razões para me demitir da Monsanto e dar inicio à minha odisseia.

Ainda me lembro que ao receber a notícia de que eu tinha um prazo de seis meses para procurar outra empresa, antes de ser demitido, minha decepção fora tão grande que, de início, pensara em abandonar de vez o ambiente corporativo. Pensara em me aventurar em algum negócio próprio. Cheguei até a alugar um ponto comercial para trabalhar com "produtos naturais", nome genérico de então para designar toda esta tendência contemporânea de conscientização do corpo e do meio ambiente, englobada pelo vegetarianismo e pelo Yoga. Contudo, era recém-casado e, considerando o estado de fragilidade financeira em que me encontrava, os riscos se mostraram enormes e desisti do projeto.

Fiz este preâmbulo para fazer entender, principalmente, aos veganos a árdua tarefa de abrir caminhos onde antes não haviam caminhos, que foi a obra e a missão, por excelência, dos pioneiros vegetarianos, como pretendo mostrar na próxima seção. Hoje os tempos são outros e, pavimentar essas vias traçadas pelo vegetarianismo, não restam dúvidas, é uma tarefa igualmente importante e que vem sendo bem executada pelos veganos.

2. Heresia e vegetarianismo

O veganismo, diferentemente do vegetarianismo, é um fenômeno recente e ocidental. Trata-se de uma invenção inglesa do século passado. Por isto mesmo, não é de todo verdade que o veganismo surgiu do aprofundamento do vegetarianismo, culminando numa maior coerência para com os direitos dos seres vivos.  Esta tese do fundador do veganismo Donald Watson (1910 - 2005) de que se você é vegetariano falta um degrau para você se tornar vegano é totalmente equivocada e carece de qualquer base científica. O vegetarianismo não é um estágio para o veganismo. O vegetarianismo é um sistema de resistência milenar, fundado em princípios espiritualistas, e sem conotação de pregação e conversão. É o aprofundamento do veganismo, uma vez atenuados o seu vigor juvenil, imaturo, excludente e preconceituoso, que levará à uma melhor compreensão desta prática altruísta milenar representada pelo vegetarianismo. Acima de tudo, ser vegetariano sempre implicou ter compaixão pelos animais, e, principalmente, pelos seres humanos não-vegetarianos ("carnista" é um termo denegridor, ofensivo, que não mostra compaixão humana, e, portanto, não faz parte, tradicionalmente, do vocabulário dos autênticos vegetarianos). Ser vegetariano implica, sobretudo, a atitude inclusiva, que acolhe e respeita a diversidade e o direito do outro de ser diferente. A tolerância, a capacidade de adaptação e o respeito à diferença e à condição do outro, são características dos pioneiros (vegetarianos) e não, pelo menos até o presente, dos modernos veganos, que se dispõem a toda a sorte de violência em forma de ativismo, impondo-se dessa maneira, é verdade, com maior força na mídia, favorecidos pelos novos tempos, muito mais propícios hoje aos valores gestados no passado pelos vegetarianos.  

Poucos veganos sequer têm ideia de que o vegetarianismo era considerado heresia na Idade Média e os seus seguidores eram punidos pela Santa Inquisição, por vezes, até com a pena de morte.  Por reconhecer que a heresia é uma erva daninha de veneno mortal, gerada dentro do seu tecido, a Igreja entendia que ela precisava ser combatida e destruída. A função de ensinar e evangelizar pertencia, exclusivamente, à hierarquia da Igreja, através de sua  ecclesia docens (o episcopado, a hierarquia). Em resumo, entendia a Igreja que, em termos de costumes, fé e moral, somente ela tinha o poder de julgar o que era o mais correto. Por isto, os antigos bispos consideravam o seu dever garantir que aqueles sob sua instrução estivessem a progredir, livres dos erros de interpretação dos dogmas cristãos, bem como do perigo de doutrinas como o vegetarianismo. Separando o herege da companhia dos fiéis, a excomunhão do praticante de falsas doutrinas visava entregar o infiel a Satã, para que fosse, por este, destruído.  Desde o reinado de Constantino, a Igreja encontrava aos seus serviços, para fins de combate aos hereges, de todo o exército do Império Romano. Nos casos mais graves, de maniqueísmo, por exemplo, os hereges eram condenados à pena de morte e os seus textos eram lançados ao fogo. Mais tarde os próprios hereges passaram a ser atirados ao fogo. O primeiro caso de condenação à fogueira de que se tem notícia data apenas do século XI. Curiosamente, a legislação da Igreja contra os crimes de heresia ainda se mantém, embora esta tenha perdido a força para aplicar as penalidades. Segundo esta legislação, são hereges todos aqueles que acreditam poder defender racionalmente suas razões para duvidar. A Igreja considerava hereges a todos aqueles que liam, estudavam, ou sabiam os conteúdos de livros não autorizados pela Igreja. Uma vez membro da Igreja, através do batismo, não se podia mais professar, fora do campo dos dogmas, a liberdade de pensamento. E esta se regulava segundo os escritos de Santo Agostinho. Quem recebia o batismo encontrava-se sob jurisdição da Igreja e podia, por ela, ser declarado herege. Heresia, entretanto, como tantos outros males, poderia vir ao fiel como um teste de fé. Por isto ao herege também era dada a oportunidade do arrependimento. Entretanto, conforme a história mostrou, os julgamentos e condenações aplicadas pela Igreja a afastaram completamente do Espírito Original do Sermão da Montanha do Cristo. A aplicação do método agostiniano de identificação de hereges, por exemplo, apenas serviu para dizimar os adeptos da alimentação vegetariana, acusados também de serem maniqueístas e, como os heréticos cártaros, acreditarem na teoria da reencarnação. A Igreja do Império Romano via a prática do vegetarianismo como um sinal grave de heresia, pois acreditava que a abstenção da carne caracterizava a crença na proscrita doutrina da reencarnação. Valendo-se dos escritos de Santo Agostinho, ex-maniqueísta, a Igreja perseguia aos vegetarianos, mesmo quando estes não tivessem qualquer ligação com as instituições condenadas em função de suas doutrinas reencarnatórias.

Dentre os testes de identificação de hereges com utilização historicamente comprovada, há dois que buscam identificar, precisamente, os vegetarianos. Um ótimo estudo sobre estes testes pode ser encontrado no artigo“The Killing Test: The Kinship of Living Beings and The Buddhalegend’s First Journey to The West” (Journal of Buddhist Ethics 9 (2002): 109-148), de Graeme MacQueen. Os testes de identificação de hereges apresentam todos uma mesma estrutura básica. Neles, o inquisidor seleciona um princípio crucial para a identidade do potencial herege e o desafia a negá-lo.. O "teste do alimento" foi utilizado para identificar tanto aos maniqueístas do período da Patrística, quanto aos cártaros do período Escolástico. MacQueen descreve-nos o modo como os representantes da Patrística, alarmados com a infiltração dos maniqueístas no clero, instituíram o teste, simplesmente verificando, dentre os monges, quais aqueles que estariam dissimuladamente rejeitando as porções de carne. MacQueen descreve também uma variação deste teste, conhecida pelo nome de "teste de morte". Cita um fato ocorrido no ano 1051 num vilarejo chamado Goslar, situado na atual Alemanha. As autoridades eclesiásticas, examinando um caso de heresia, apresentaram aos suspeitos uma galinha viva e ordenaram que eles quebrassem seu pescoço. O que os suspeitos não sabiam era que a recusa em matar a ave era prova de heresia que a Igreja buscava.  O processo resultou na condenação do grupo à pena de morte por enforcamento. 


3. Os fundamentos e as origens do vegetarianismo e do veganismo

Ao longo da história, os vegetarianos foram privados de exercer o direito de escolha da sua própria dieta. Por isto, inclusive, defendem este mesmo direito de livre escolha, pelo qual deram as suas vidas, para todos, advogando, desse modo, pelo direito histórico que as pessoas têm, inclusive, de não serem vegetarianas. Sabem da importância de considerar o momento e a cultura de cada um, os quais procuram respeitar, estimulando a convivência pacífica com todos. Os vegetarianos não buscam catequizar as pessoas, nem estimulam o conflito, agredindo os valores e os hábitos culturais com os quais não compactuam.  Pelo contrário, acreditam que podem e devem auxiliar no gradual processo de humanização das pessoas e que para isto devem se valer, unicamente, do seu EXEMPLO DE TOLERÂNCIA, COMPAIXÃO E RESPEITO À DIFERENÇA. 

Modernamente, contudo, com o fortalecimento do vegetarianismo e da sua luta de conscientização em torno do sagrado de todas as formas de vida e do próprio planeta, surgiu o modismo midiático e, com ele, o fenômeno dos pueris radicais ressentidos que, embora se dizendo veganos, ignoram as suas origens no vegetarianismo pacifista e não sectário.  Entretanto, por ser um subproduto do milenar vegetarianismo, o veganismo também se fundamenta a partir do conceito espiritualista de Ahiṃsā -- termo sânscrito que se traduz como "não-violência" e que, particularmente, gosto de subssumir na máxima do ancestral Ioga de que trata a literatura védica: 
Não ofenda, nem se ofenda; ame e compreenda; isto é Ahiṃsā, a sagrada práxis dos autênticos e puros iogues. 
Há um estória destas, que os iogues contam de mestre a discípulo, que exemplifica bem o sentido desta máxima dos iogues. Uma velhinha, já quase em seu leito de morte, como gesto para se despedir da vida, convida para uma última refeição em sua humilde casa o iogue e santo mais famoso da região. Quer lhe prestar uma homenagem, dar provas de sua devoção para assim poder entregar o seu corpo a Deus. O homem aceita o convite da velhinha e vai visitá-la. Esta, radiante e honrada pela presença daquele homem sagrado em sua residência, prepara, o melhor que pode e com as forças que lhe restam um simples prato de arroz, que oferece ao santo com o maior carinho. À mesa, ela, quase cega, mal consegue fazer o prato e servir. O santo, contudo, se admira de tamanha devoção. Aquela comida simbolizava toda a relação da velha senhora com o sagrado. Era a Deus que ela estava servindo. Ao tocar no arroz, contudo, o santo nota algo se movendo. Havia uma barata no prato dele. Ele olha para os olhinhos de felicidade da velhinha; olha para o seu prato e reflete sobre o verdadeiro sentido de ser vegetariano e mostrar respeito e compaixão com todos os seres. Aquela velhinha, em seu último gesto nesta vida não suportaria a dor e a decepção se visse a barata viva no prato do santo. Consideraria esse acidente um insulto e uma ofensa ao seu venerável hóspede. O iogue, então, refletiu por um momento sobre o processo daqueles dois seres vivos que tinha ante si e, com a mão (come-se com as mãos nesses vilarejos), cobriu de arroz a barata. Em seguida, num gesto rápido para que velhinha não pudesse perceber, levou à boca aquela porção de arroz. Sacrificou a barata, sacrificou, momentaneamente, a sua prática vegetariana, em nome da verdadeira razão de ser do vegetarianismo -- a compaixão para com todos os seres, em especial com aquela velhinha em busca das bençãos do santo para deixar este mundo em paz. O santo sabia, melhor do que ninguém, que, por vezes, o mal maior não é o que entra, mas o que sai pela boca. 

Como se sabe, nasce desses iogues indianos a ideia de compaixão a todas as criaturas vivas e, consequentemente, a própria prática do vegetarianismo. As suas origens remontam à civilização pré-indiana do Vale dos Indus (3300 1300 a.C). Dentre os primeiros vegetarianos destacam-se o filósofo jainista Mahavira (ca. 600 a.C), o Senhor Buda e os imperadores indianos Chandragupta e Ashoka. Após converter-se ao budismo, o imperador Ashoka proibiu o sacrifício de animais, levando todo o reino a tornar-se lacto-vegetariano. O lacto-vegetarianismo sempre esteve presente na Índia, onde a relação de amizade com os animais os elevava ao patamar de sagrado. Somente um ocidental pouco informado poderá acusar um indiano que se alimenta do leite de vaca, tal como Krishna o fazia, de estar explorando a vaca. Pelo contrário, a vaca goza na Índia de um status de respeito motivo de chacota no ocidente. Já o termo "vegetariano", mais especificamente, ao que tudo indica, teria sido utilizado pela primeira vez em 1847 por ocasião da reunião inaugural da Sociedade Vegetariana do Reino Unido -- The Vegetarian Society, frequentada por Gandhi, que foi membro do seu comitê executivo. Gandhi afirma em um discurso na Sociedade Vegetariana em 1931 que uma alimentação livre de carne era uma questão de ética, não de saúde, o que deixa claro que este enfoque no aspecto ético não é privilégio do veganismo. Na verdade, já era comum mesmo antes de 1847.  O livro An Essay on Abstinence from Animal Food: as a Moral Duty, de Joseph Ritson, por exemplo, é de 1802. E assim tantos outros que  surgem em seguida: The Return to Nature, or, a Defense for the Vegetable Regimen (1811), de John Frank Newton, A Vindication of Natural Diet (1813) de Percy Bysshe Shelley e Water and Vegetable Diet (1815) de William Lambe. Além do mais já haviam muitos vegetarianos por razões éticas entre diversos grupos religiosos, como os Adventistas do Sétimo Dia, nos EUA, por exemplo. 

De outro lado, estritamente falando, não se pode chamar de vegano nenhum movimento anterior a 1944, ano em que o termo "vegano" foi cunhado para caracterizar alguns dissidentes mais radicais, descontentes com a condescendência injustificada de uma parte de vegetarianos. Fundada em 1944, à parte da Sociedade Vegetariana, esta nova organização logo alcança a Califórnia (1948), onde se desenvolve, fiel às suas raízes vegetarianas. Nos anos sessenta torna-se, praticamente, uma extensão da revolução eco espiritual e do movimento da contracultura dos EUA, cujas influências orientais logo se popularizam em todo o mundo ocidental. O livro Diet for a Small Planet (1971) de Frances Moore Lappé alcança a cifra de três milhões de cópias, abrindo as fronteiras para o surgimento nas décadas seguintes da cultura do vegetarianismo ecofeminista, defendida em livros como The Sexual Politics of Meat: A Feminist-Vegetarian Critical Theory (1990), de Carol J. Adams, e do movimento vegano, com a produção de filmes como Earthlings (2005), dentre outros. No Brasil, o veganismo passou a ser divulgado a partir da década de 90, com os meios de comunicação de massa contribuindo fortemente para a popularização do movimento. Por aqui, contudo, já tínhamos uma forte tradição de vegetarianismo e o veganismo surgiu entre nós quase como um modismo importado, fazendo-nos esquecer de que até 1944 a palavra "vegetariano", sempre inclusiva, englobava os dois conceitos -- vegetariano e vegano --, pois se referia, àqueles que eram conhecidos como "pitagóricos", ou seguidores da "dieta pitagórica" (baseada no consumo de raízes, folhas, frutas, sementes, leite e mel) por causa do filósofo Pitágoras e outros, como Empédocles, Teofrasto, Ovídeo, Seneca, Plutarco, Plotino e Porfírio, que não se alimentavam de produtos de origem animal. Pitágoras percebera que o sacrifício de animais embrutecia a alma das pessoas e que, portanto, a coexistência pacífica entre os distintos grupos de seres humanos só poderia advir do exemplo dos vegetarianos. Pitágoras nunca deixou nada escrito, contudo, segundo alguns, ele teria dito: 
Enquanto o ser humano for implacável com as criaturas vivas, ele nunca conhecerá a saúde e a paz. Enquanto os homens continuarem massacrando animais, eles também permanecerão matando uns aos outros. Na verdade, quem semeia assassinato e dor não pode colher alegria e amor. 
Alguns séculos mais tarde, no início da era Cristã, o filósofo neoplatonista Plutarco de Atenas (ca. 350-431) também faz um discurso onde define o consumo de carne como um ato de luxúria e crueldade.  Aos poucos, os filósofos neoplatônicos estavam popularizando a dieta pitagórica que, se não tivesse sido fortemente reprimida pela Igreja, logo teria se espalhado por todo o ocidente. Curiosamente, precisamente agora, o movimento vegano, mais forte no Brasil e no mundo, parece estar se afastando de suas raízes indianas e gregas e, consequentemente, dos verdadeiros pioneiros. Não é incomum ver os veganos exercerem as mesmas práticas violentas e opressoras das quais no passado os pioneiros do vegetarianismo foram vítimas. Por isto veganismo parece incomodar bem mais as pessoas que consomem produtos de origem animal que o vegetarianismo.

Com o veganismo, em suma, veio essa espécie de equívoco, sob a forma de um ativismo mais exacerbado e que, embora também positivo, apresenta pontos altamente negativos. Não é incomum se associar o veganismo com uma seita religiosa que demoniza os não adeptos. Já o vegetarianismo no Brasil, sempre passou despercebido e os vegetarianos raramente são vistos com antipatia. São considerados apenas pessoas que não gostam de consumir produtos animais. Nada mais. Vegetarianismo, de acordo com a Sociedade Vegetariana Brasileira, fundada em 1917 por Carlos Dias Fernandes, quer dizer, simplesmente, vida de acordo com a natureza. Conforme o próprio fundador do movimento argumenta em seu livro Proteção aos Animais (1914), o ser humano tem que assumir o seu papel de protetor dos animais e de toda a natureza.


Rio de Janeiro, 18 .06.17.
(Atualizado em 18.06.17)

(Vegetarianismo e Espiritualidade)