quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

AS CELEBRAÇÕES DE DEZESSEIS DE JANEIRO e o meu encontro com o Professor Hermógenes e Sathya Sai Baba

Como parte das celebrações de dezesseis de janeiro, início dos ciclos anuais de trabalhos visando a recuperação da saúde do planeta e da consagração de todas as ações e medidas socioambientais realizadas em nome da boa ordem ecológica e do pleno desenvolvimento do ser humano, resolvi acrescentar ao blog as seguintes seções: (1) Textos Acadêmicos, onde disponibilizo meus principais artigos; (2) Contribuições para o Site da Universidade do Coração, onde apresento uma lista de textos escritos com formato e conteúdo no espírito dos servidores voluntários do Site; e (3) Textos Antigos Publicados em outras Plataformas, onde reúno antigas publicações que sinalizam para este trabalho sutil e oculto de restauração da paz e harmonia no mundo.

Da seção Textos Acadêmicos, destaco (1) Śraddhā in the Bhagavad Gītā: an investigation on the primeval expressions of the contemporary paradigm on heart-philosophy e  (2) Uma Visão Polifônica sobre a Gênese da Ciência do Sagrado na Bhagavad Gītā, que tratam da ciência do sagrado no espírito destas celebrações de dezesseis de janeiro. Da seção Contribuições para o Site da Universidade do Coração, destaco o texto O que é o Śuddha Dharma? (1), com mais de 400.000 visualizações, e os textos Reunião Inicial, Histórico, Quem Somos, Teatro Palco da Vida, Projeto Bambá e Edifício Milagres, que se inserem nesta celebração. Por fim, dos Textos Antigos Publicados em outras Plataformas, destaco Meu encontro com Hermógenes e Sathya Sai Baba, que saiu com o título Sathya Sai Baba no site Debates Culturais.

Todos esses textos relacionam-se com o processo gradual de implementação da futura Universidade do Coração, discutida no encontro que aconteceu de três a cinco de fevereiro de 2012, na sede do Grupo de Estudos Mahavana, no Rio de Janeiro. Nesta ocasião foram estabelecidos os pilares fundamentais da Universidade do Coração, já gestados há alguns anos, a partir de diversas iniciativas dos três campi mantidos pelo Instituto Cultural Grande Síntese: (1) a Fazenda Mãe Natureza, localizada à margem do rio São Francisco, no Povoado da Saúde, em Santana do São Francisco - SE; (2) a Comunidade da Balsa (em frente a estação da balsa que faz a travessia para Penedo - AL), e (3) o Edifício Milagres, localizado na rua Lagarto, 58, Aracaju – SE.  Alguns meses depois deste encontro, no dia 31 de agosto de 2012, sexta-feira, às 21h00, aconteceu, na Fazenda Mãe Natureza, a cerimônia de consagração e inauguração do complexo da Comunidade da Vida Divina, a Unidade do Śuddha Sabha Ātma, responsável pela concepção da Universidade do Coração. O estabelecimento da Pedra Fundamental da nova sede do Śuddha Sabha Ātma acontecera em 31 de dezembro de 2011, sábado, exatamente às 12h00  e foi a partir daí que se passou a desenvolver de forma mais concreta uma serie de ações destinadas à constituição desta universidade voltada, unicamente, a facilitar o contato real com o Ser Sagrado que reside no coração de todos os seres. 

Dentre as diversas iniciativas já desenvolvidas na Grande Síntese em consonância  com o estabelecimento da futura Universidade do Coração destacam-se  (1) a escola infantil Curtindo o Coração, situada no Edifício Milagres e (2) o Projeto Bambá, desenvolvido na Fazenda Mãe Natureza (Santana do São Francisco -- SE).  A Escola Curtindo o Coração iniciou as suas atividades em agosto de 2011, poucos meses após a inauguração e consagração do Edifício Milagres, situado à Rua Lagarto, nº 58, em Aracaju, ocorrida às 5h00 da manhã do domingo de 16 de Janeiro de 2011. Simbolicamente, a inauguração do Edifício Milagres e a criação da Escola Curtindo o Coração representam a materialização, no plano do concreto, de um sonho iniciado há quase cinquenta anos, quando os primeiros integrantes do grupo que hoje forma a Grande Síntese saia pelo povoado do Mosqueiro, em Aracaju, orientando as pessoas e prestando ajuda. O grupo do “seu Francisco”, como eram chamados os poucos membros daquela comunidade, vivia em um pequeno terreno com uma horta comunitária. Agora, em sede própria nascia a escola que teria como missão servir de cadinho de experimentações sobre a educação mais adequada para a promoção do desenvolvimento integral do ser humano. Este projeto educacional representa um desenvolvimento natural das diversas oficinas do Projeto Bambá, iniciado em junho de 2000 junto aos professores da rede pública da Região do São Francisco. Estruturado em torno das oficinas Canto do Mato, Teia da Vida, Papel de Ser, Menino do Dedo Verde, Arte da Terra e Palco da Vida, o Projeto Bambá objetiva a promoção de uma consciência ecológica global, orientada pela experiência de preservação dos recursos naturais locais.

A Escola e as diversas oficinas do Projeto Bambá fazem parte da mesma proposta educacional onde se insere a Universidade do Coração. Na Escola Curtindo o Coração as crianças aprendem fazendo, produzindo, comparando, associando, interagindo, conhecendo, brincando e descobrindo em contato com a natureza.  As distintas atividades são realizadas de forma lúdica, por meio de jogos, técnicas de grupo, danças circulares, caminhadas ecológicas, passeios de barco, exibição de vídeos, técnicas de preservação do solo, da fauna e da flora e a produção de objetos artesanais.  A Oficina Menino do Dedo Verde proporciona ao participante o contato direto com a terra e se encerra com o plantio de mudas de árvores em extinção na região. A Oficina Arte da Terra introduz a modelagem em argila como meio para estimular o desenvolvimento da sensibilidade e da reflexão sobre o papel transformador do artista -- como estamos modelando o nosso mundo? A Oficina Papel de Ser trabalha técnicas de produção e manuseio de papel reciclado para o desenvolvimento de artigos de decoração. As crianças são estimuladas a refletirem criticamente sobre questões como: qual o meu papel na comunidade? o que significa reciclar? o que eu preciso reciclar em mim e em minha vida? A Oficina Teia da Vida introduz a tecelagem como um instrumento para o desenvolvimento de uma saudável disciplina da mente. Tecer a sua própria história, fio por fio, linha por linha, aprender a refletir e, com paciência, desatar todos os nós; implica em aprender a analisar a trama da sua própria vida e assim se capacitar para atuar criticamente dentro do tecido social. A Oficina Canto do Mato introduz o canto coral em diversas atividades. Tem como objetivo que cada integrante do coral contribua com a sua própria voz, em harmonia com a voz dos demais, na construção de uma nova identidade social. A Oficina Palco da Vida vale-se da arte de representar como instrumento no processo de autoconhecimento e descoberta de si mesmo. O teatro é utilizado como um instrumento de transformação da realidade.

O Teatro Palco da Vida, sediado na Fazenda Mãe Natureza, representa outro experimento dentro da proposta de criação da Universidade do Coração.  Inaugurado em 2009, com capacidade para 300 pessoas, propõe-se a desenvolver um teatro de natureza psicossocial e política e com elevado grau de compromisso entre a teoria e a práxis, conforme proposto no Teatro de Augusto Boal e no ancestral Bharata-Muni-Nāṭya-Śastram, o Tratado (śāstra) do Sábio (muni) Bharata, acerca das Artes Performáticas (nāṭya). Ali, a experiência teatral não se destina, entretanto, à exaltação do bem em detrimento do mal, senão que ao papel de (re) apresentar a essencialidade das relações indiferenciadas de ambos nos processos do mundo. Daí a sua formulação, segundo o próprio texto, com o fim de encenar e dramatizar os distintos episódios das narrativas épicas (itihāsa) como o Mahābhārata e o Rāmāyaṇa, onde os sentimentos (bhāva), a gestualística (abhinaya), os atores (dharmī), os estilos (vṛtti), a cultura local (pravṛtti), as habilidades (siddhi-s), as notas (svara-s), os instrumentos musicais (ātodya-s), a música (gāna) e o palco (raṇga) dão forma a uma experiência estética (rasa) cuja finalidade é a superação das baixas inclinações (grāmya) e a promoção dos estados emocionais, ou emoções estéticas (bhāva), que procedem do coração.

De acordo com a maiêutica do ardor do coração (śraddhā), pressuposto básico da Universidade do Coração, a formação do ser humano representa um processo psico-sócio-político de descoberta de si mesmo. Representa um ato integral, de síntese, onde o diapasão para se encontrar a sintonia fina com o sagrado é, unicamente, o coração. Sabemos que a mente segue métodos e metodologias, mas o coração, não. O coração apenas busca o seu ritmo e procura se harmonizar, para evoluir, sem perder a cadência, nem o compasso. A mente se filia a distintas correntes religiosas, filosóficas e políticas. O coração, não. O coração não tem corrente, porque não sabe viver acorrentado. As religiões ocupam-se da fé nas Escrituras, enquanto o coração ocupa-se do sentimento de amor, ou fé interior, ou fervor do coração (śraddhā), que dá origem a todas as religiões.  Onde há mais amor, o mundo é melhor.  Logo, nenhum processo de mudança que não o promova, ou não seja nele fundado, pode produzir qualquer melhora significativa no mundo. O amor, portanto, é a lei natural que, no curso do tempo, aproxima o ser humano, sempre em transformação, ao seu estado mais bem acabado e completo. As pessoas tornam-se melhores quando desenvolvem esta natureza amorosa, capaz de organizar e estruturar o território psico-sócio-ambiental, onde se fundam as experiências do Ser. Por nascer de dentro, este processo representa a transcendência ao estágio de pertencimento a esta ou aquela religião em particular. Daí, afinal, o lugar da Universidade do Coração. 

Por fim, para concluir destaco o texto da seção TEXTOS ANTIGOS publicados em outras plataformas, Meu encontro com Hermógenes e Sathya Sai Baba, que completava 84 anos naquela segunda-feira, 23 de novembro de 2009. Resolvera aproveitar a celebração do seu aniversário para escrever uma mensagem sobre as muitas metáforas do Ser.  Havia estado, pouco antes, com o Professor Hermógenes, que completara 85 anos e mantinha ainda a sua força e lucidez.  Tivera a oportunidade de discutir com ele sobre aquela contundente introdução que fez à tradução de Haydeé Touriño Wilmer da Bhagavad Gītā, editada pela Śuddha Dharma Maṇḍalam. O Professor Hermógenes me afirmara estar descontente com os rumos que a Śuddha Dharma Maṇḍalam tomara após a morte de Sri Janardana, em 1966.  Por isto havia se afastado da instituição externa e, gradualmente, se aproximado de Sathya Sai Baba, a quem considerava com um carinho todo especial. Depois dessa conversa com o Professor Hermógenes, ponderei sobre as verdadeiras visitas que nos levam a ser visitados em nossos corações pelo que, de fato, buscamos.

Estava de viagem marcada para a Índia e chegara a considerar se não deveria ir ao local onde Sathya Sai Baba costumava fazer as suas aparições periódicas. Então considerei se gostaria de estar no meio de uma multidão perdida, com pessoas de todos os tipos, apenas para “ver” um “santo hindu”. Não queria a viagem como aquele deslumbramento ingênuo de tantos, sempre em busca daquilo que não se pode encontrar aqui nem acolá, senão que dentro de si mesmo. Comecei, então, a refletir a respeito e esbocei algumas linhas no diário, o espaço do simbólico no interior silencioso do meu ser. Quando se está a ler ou escrever, entra-se nessa esfera das ondas mentais daqueles com quem nos relacionamos. E assim o outro se faz presente. O silêncio do coração perfuma e limpa a atmosfera planetária. O silêncio nada mais é que o amor, receptáculo e guardião de todas as palavras, todas as Escrituras e toda a poesia. Entendi o que tinha a me dizer.  As linhas a seguir são um resumo do que ali registrara.

Para que todas estas visitas pelo mundo exterior? São inúteis se já não tiveres antes visitado o interior do coração. Para que esse culto à personalidade deste ou daquele santo, quando já se divulgou no mundo toda a ciência do ser? É na mente que se conhece o verdadeiro asceta. O que é o próprio saber? Para todo o sempre, nunca haverá de se saber; eis que este se transforma — uma ora aparece como ciência, outra como não-ciência. Que a tua crença seja em conformidade com a tua pureza; e que a cada dia cresças em tua capacidade de se desvestir destas crenças. Todas elas são verdadeiras… Todas elas, mais cedo, ou mais tarde, tornam-se falsas…

Entre a luz e a sombra, fica com ambas, pois é do contraste que uma revela a outra. Que as sombras não te envolvam, nem te dominem. Quando pisares nos solos da Índia, lembra-te de que já conversamos e de que nada mais há para ser dito. Pisa aqui com o pé esquerdo primeiro e, com o direito, esteja já de volta ao seu lugar, munido da energia e da coragem para realizar aquilo que de há muito espera por ser realizado. Visita os amigos, aos ashrams para os quais foi convidado; entretanto, não saias mais do teu centro, não abandones o coração. Que os teus pés caminhem pela Índia, mas que a tua mente nunca mais abandone o teu coração.

Se o corpo já não suporta esta luz e esta presença, cura-te aos poucos, pois nada há de mais triste que não suportar a presença da luz. Esta luz é a guia e, em tudo, a cura. Cultiva-a para no futuro ser merecedor de nova cirurgia. A de hoje, não assististes, ainda que dela te beneficiaste. Hoje eu sou apenas o motivo para este novo degrau que agora galgas dentro deste grupo que se organiza em torno do Amigo Divino. Dele, não de mim, vem a instrução.  Começa hoje, agora. Eis aí um modo de renascer, antes mesmo de morrer.

Em suma, estas linhas do diário, que retratara no artigo Meu encontro com Hermógenes e Sathya Sai Baba, resumem o espírito sempre jovem destas celebrações de dezesseis de janeiro em torno das amizades divinas e do estabelecimento da Universidade do Coração.

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Texto inicial: Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 2017.
(Atualizado em 19.02.17)

(Tudo de OM: Prelúdio da Jornada Interior)