sábado, 15 de outubro de 2016

Blog no ar sob a égide de "Śraddhā Quaerens Intellectum"

Primeira tese de filosofia sobre a  Bhagavad Gītā
Livro publicado a partir da tese de
mesmo título.
Qual o papel da filosofia no estudo da religião?  Esta questão acompanha o desenvolvimento da tese "Śraddhā in the Bhagavad Gītā" (2007) – a primeira sobre a Gītā oficialmente reconhecida como pertencendo ao campo da filosofia  e não simplesmente aos campos da religião, literatura, história, psicologia, sociologia e áreas afins. A tese parte do princípio que as religiões ocupam-se da fé (latim: “fides”; grego: “pistis” – crença) exterior nas Escrituras, enquanto a Bhagavad Gītā ocupa-se daquele sentimento racional de “fé interior” que está na origem, tanto da ciência como das religiões, e que se designa em sânscrito como śraddhā (convicção interior e sentimento racional de certeza). “Śraddhā” é um termo sânscrito que, no contexto da Bhagavad Gītā, denota a convicção íntima, a bússola, o ardor e a amorosa luz do coração que ilumina e dá foco à razão.

Marca característica daqueles que já experimentam daquilo que antes era mero objeto de fé, śraddhā representa não a espera, mas o estado de encontro, ou descoberta da essência do real, de onde se origina a certeza interior.  Enquanto a fé exterior, ou fé sem śraddhā, é característica daqueles devotos (bhaktas) que, embora creiam no sagrado, o ignoram; śraddhā, a fé interior, ou fé em si mesmo, ao constituir-se como fonte de certeza, caracteriza aqueles (bhaktas ou não) cujo saber funda-se tanto na ciência, como no sentimento de universalidade que permeia a essência do sagrado.

Śraddhā representa o Princípio da Confiança expresso no cogito cartesiano. Representa a razão esclarecida pelo coração tranquilo e pelo sorriso interior que orientam e aferem a conduta do herói em sua jornada. Śraddhā opera como o termômetro espiritual da faculdade da vontade. Denota, portanto, o processo racional e dialético de superação da vontade e da fé exterior, esta entendida como um estado de espera pelo encontro com as verdades últimas e o sagrado revelado nas Escrituras. O recém publicado artigo "The role of philosophy in the academic study of religion in India", da Dra. Sonia Sikka (Professor of Philosophy, University of Ottawa, Canada), parte de algumas destas ideias desenvolvidas em minha tese para avançar na discussão sobre o papel da filosofia no estudo da religião.

Então, hoje, 15 de outubro, em celebração a esta vitória e reconhecimento oriundo da Filosofia, coloco no ar este blog  "Diário da Consciência de Si"   para expressar este poder de convergência da faculdade da vontade, designado na Bhagavad Gītā como śraddhā e que fundamenta os ideais da nascente Universidade do Coração. Foi também em um 15 de outubro que D. Pedro I baixou o Decreto Imperial que criou o Ensino Elementar no Brasil (1827). Cento e vinte anos mais tarde, em 1947, aconteceria o primeiro encontro de docentes e a ideia de se reservar o dia 15 de outubro para o estabelecimento de encontros anuais de professores, estudantes e pais, com o intuito de se discutir os rumos da educação no Brasil. A ideia logo se espalha e, em  14 de outubro de 1963, o Decreto Federal 52.682 oficializa o dia 15 de outubro como feriado escolar com a seguinte justificativa: "Para comemorar condignamente o Dia do Professor, os estabelecimentos de ensino farão promover solenidades, em que se enalteça a função do mestre na sociedade moderna, fazendo participar os alunos e as famílias". 

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Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2016.
(Atualizado em 11.10.17)